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A casa encantada
Na casa da minha avó respirávamos o mês junino — época de muitas comilanças e festanças. O bafafá começava cedo, com o cantar do galo. Vovó levantava para pilar fubá de milho, e eu também despertava cedo. Como tinha medo de dormir sozinho, ficávamos juntos, cada qual em sua rede: vô de um lado, eu no meio e vó do outro.
Quando ela ou meu avô se levantavam, eu percebia pelo balançar da minha rede. Naquela época, a casa não tinha ganchos nas paredes para fixar os punhos das redes; elas eram amarradas com cordas na linha da casa (a chamada viga baldrame).
Qualquer reboliço fazia as demais redes se mexerem — para mim, nas noites assombradas, isso era bom, pois, quando a minha rede balançava, eu tinha certeza de que havia alguém acordado. Sabia que havia alguém atento a qualquer malfeitor que viesse entrar na casa.
Aqui e acolá, tarde da noite, eu acordava sufocado de medo ao ouvir barulho nas telhas. Respirando sofregamente, perguntava baixinho:
— Vô?!
Quase de imediato, meu avô respondia aquela velha frase noturna, surrada e automatizada:
— É gato, vá dormir!
Tudo na casa, à noite, metia medo, assim como as baratas que voavam com frequência e das quais eu me protegia cobrindo-me dos pés à cabeça. Das portas e janelas, apenas uma das portas tinha tramela; outra nem fechadura possuía. Não eram seguras o bastante e, ainda por cima, tinham frestas — quem estivesse lá fora, se houvesse luz acesa dentro de casa, conseguia ver uma pequena parte do ambiente.
As portas que davam para o quintal eram fraquíssimas. Eu só confiava nos dois cachorros, ainda que com certa desconfiança, pois o mais velho tinha baixa visão — praticamente cego, seria a melhor definição — e o outro era débil mental: latia para pneu de bicicleta e para as galinhas idosas, mas, diante de qualquer outra coisa, colocava o rabo entre as pernas e perdia a voz de medo.
Mas era uma linda casa, simples que dava gosto. Não era pobre de maré, mas era nela que eu encontrava abrigo durante o dia e aconchego durante a noite. E, apesar dos sustos que a escuridão às vezes trazia, ela sempre parecia me acolher em seus braços silenciosos.
Nas noites de insônia, eu chegava a acreditar que a casa conversava comigo:
— Moço, durma em paz. Tem gente acordada aqui dentro e lá fora. Se acontecer alguma coisa, eu aviso.
E eu acreditava. A casa nunca mentia para mim.
Do lado de fora, bem pertinho da porta, eu podia ficar tranquilo até altas horas da noite. Ninguém haveria de arrombá-la, pois ali permaneciam os vigias — moradores e moradoras da madrugada — sempre de plantão. Eram senhores e senhoras já avançados na idade, ou quase isso, reunidos sob a luz pálida de um velho poste, entretidos em demoradas partidas de vispa e em conversas que pareciam não ter fim.
Enquanto as cartas iam e vinham sobre a mesa, eles guardavam a rua sem sequer perceber. E eu, menino, dormia com a certeza de que havia mais olhos cuidando da noite do que qualquer perigo disposto a atravessá-la.
Confiante na palavra da casa e na velha frase de meu avô, surrada de tanto repetir, eu sossegava a mente. Já imaginava o raiar do dia e o fuzuê que logo tomaria conta de tudo. Então, sem perceber, adormecia.





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