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A Noite das Fogueiras no Beco

As chamas na fogueira acesa agora se espalhavam abruptamente pelos troncos, enquanto o estalar da madeira consumida pelo fogo ecoava pela noite. Eu olhava aquela cena mágica: o beco agora era feito de luz e fumaça. Os meus amiguinhos chegavam para festejarmos a cerimônia do fogo. Corríamos em torno das várias fogueiras que encantavam a noite.

Sentíamos calor no corpo e o brilho intenso nos nossos olhos, estas sensações nos impulsionavam a criar brincadeiras. Ora eu era o monstro do fogo, renascido das chamas, que viera atacar o povo da aldeia, ora eu era a vítima que seria jogado ao fogo por ter beijado a princesa do beco sem a permissão do rei; ora disputávamos quem tinha o cuspe mais certeiro, capaz de apagar uma pequena brasa desgarrada da fogueira, ora tentávamos segurar por mais tempo uma brasa recém apagada na mão.

Eram infinitas as possibilidades que podíamos inventar, de modo que a noite parecia pequena para nós. Vez por outra éramos interrompidos pelos fiscais de plantão, meus avós e pais de amiguinhos vinham ver o que estávamos fazendo. Nós já tínhamos preparada a brincadeira certa, e mais leve, para quando eles se aproximassem.

Outro momento de interrupção era quando nossas madrinhas de fogueira chegavam para nos abençoar. Lembro-me de quando tive uma madrinha de fogueira, foi em um ano anterior a esse, havia uma certa regra que deveríamos cumprir: dar três voltas ao redor das chamas, unindo as mãos direitas e falando umas palavras das quais já nem me lembro mais, só sei que, após esse movimento todo, a pessoa era minha madrinha e eu teria que pedir a benção dela até a eternidade.

E ainda, um outro momento de interrupção era quando meu avô me chamava para assar espiga de milho na fogueira. Ele trazia uma comprida estaca metálica com ponta, com cabo de madeira improvisado, e introduzia na parte debaixo da espiga de milho, em seguida levava ao fogo. Deixava lá sob as chamas e eu era quem tinha que vigiar para que a espiga não ficasse preta totalmente.

Depois de um certo tempo, de olho na espiga, e já suado do calor das brasas, às vezes revezava com meus amiguinhos para ver quem aguentava por mais tempo ali, olhando para o fogo e resistindo ao calor. A disputa não demorava, pois, vô nos tirava dali ou por estar muito tempo parado próximo ao fogo, ou porque a espiga havia ficado muito preta.

Logo que acabávamos de “supostamente” assar as espigas, já começava outra brincadeira: jogar traque dentro da fogueira para ver as brasas se espalharem e uma chuva de faíscas subir pelo céu escuro. Bem no instante do estouro, eu abria os braços, rodopiava as mãos no ar e fingia ser um mágico.

Cada um tinha a sua vez de caprichar na performance.Nas nossas mentes éramos os feiticeiros da noite.A brincadeira durava até que os adultos percebessem nossas magias e viessem nos tirar daquele fogo encantado.

Toda vez que éramos cortados de uma brincadeira, passávamos para a fase seguinte, até chegar a hora fatal: pular a fogueira três vezes. A gente só entrava nessa brincadeira quando a fogueira já estava baixa, ficando somente as brasas acesas e um monte de cinzas por cima. Neste último nível, já estávamos cansados e com os olhos marejados; era um choro fumacento, porque a fumaça fazia nossos olhos arderem sem piedade.

Mas como tudo tem um fim, e a gente não era feito de ferro, dizia minha avó, já estávamos esgotados. Olhos ardendo muito, suor escorrendo por todos os cantos do corpo, e com um colar natural no pescoço que minha avó chamava de corrente de sujo — bastava tomar um banho com bucha do mato que desapareceria rapidinho.

Passava das 21h, meu avô dava os últimos avisos (tinha que ser mais de uma vez):

— Tá na hora, moço! Já chega!

Meus amiguinhos foram tangidos para as suas casas por seus pais.

O povo do beco estava se recolhendo, restavam alguns adultos bebericando, e algumas poucas casas de onde ainda saía, baixinho, um forró pé de serra.

As chamas das fogueiras já tinham acabado; restavam apenas alguns pontos avermelhados que teimavam em virar a noite. Agora era hora de as fogueiras ficarem a sós. Era a vez das almas brincarem.

Dei as costas para aquele monte de cinzas ainda quentes, pois acreditava que, se me virasse para olhar pela última vez, seria possível enxergar as almas pulando por sobre o fogo adormecido. Vô fechou as portas e armou as redes.

Sem demora, corria para pegar os chinelos e ir ao banheiro — um outro local cheio de aventura também…, mas essa já é outra história.

Após o banho — ainda com os olhos ardendo, e agora com o pescoço ardendo também, pois usei com muita força a bucha do mato para retirar a sujeira encrustada — fui para a rede. Estava feliz. Antes de cair no sono, tentei repassar rapidamente as lembranças do dia. Mas os olhos pesavam. Ainda me esforcei para recordar: ah, eu gostei muito de…

PRÓXIMA POSTAGEM (parte FINAL): “A Última Cerimônia”  AGUARDE!

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