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A Útima Cerimônia
Como sempre, acordei no mesmo instante em que meus avós acordavam. Vó foi a primeira a se levantar, e logo em seguida foi vô. Eu demorei um pouquinho antes de colocar os pés no chão. Meus olhos não estavam mais ardendo. Fiquei esperando vô abrir a porta. Estava curioso para saber em que estado se encontrava a fogueira, pois já não sentia aquele cheiro de fumaça.
Ouvia conversas pelo lado de fora, acompanhadas de barulhos de vassouras em ação. Pulei da rede, imaginei que alguém estava pondo um fim nos restos mortais das brasas, aproximei meu rosto da porta para tentar ver algo pelas várias rachaduras. Sem sucesso. Os pontos de observação não estavam alinhados com o que eu queria ver.
Diante da minha agonia, tentei abrir as portas. Destravei primeiro o ferrolho inferior. No entanto, não conseguia alcançar a parte superior para destravar o segundo ferrolho, pois a parte inferior da porta só abria se a superior estivesse destravada. Vô viu minha peleja e, no mais que de repente, veio e destravou o outro ferrolho.
Ao escancarar as duas portas, deparei-me com algumas brasas agonizando, e outras já tinham perdido o fogo, todas estavam recobertas pelas cinzas. Pensei que as almas tinham levado o fogo para o céu, pois as chamas sempre sobem, como se pedissem ajuda para voltar às suas origens.
No instante em que eu contemplava os últimos suspiros das brasas, caiu sobre elas água — pensei que era chuva, mas não era: minha avó tinha preparado um balde de água para ajudar na morte forçada da brasa ainda acesa.
Quando a água caía sobre a brasa, escutava-se um chiado e, ao mesmo tempo, subia fumaça parecendo a alma indo para o céu. Pronto. Agora tudo tinha acabado. O fogo tinha ido embora. O mundo mágico, na casa encantada, estava chegando ao fim. A última cerimônia era realizada pela minha avó.
Antes de varrer todo aquele pó, ela coletava em um pote as cinzas deixadas pelo fogo da purificação. Ela dizia que era para proteger a gente, afastar os maus espíritos, evitar coisas ruins do mundo e, principalmente, para evitar as minhas ruindades.
Não entendi bem o que era essa ruindade, mas entendia que as cinzas colocadas no pé da parede iriam me proteger até a próxima vez da volta do fogo, logo depois das minhas férias da escola, quando voltaria à casa encantada, onde o fogo sempre trazia de volta aquele mundo mágico.
FIM




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