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Quando a Noite Chegava no Beco

Todos os dias, próximo das 18h, o radinho de pilha da vovó — chiava que só uma chaleira no fogo — tinha que estar ligado à espera da hora da bênção da noite. Ela era fiel a seus instintos, tal qual os pássaros migratórios.

No dia em que as pilhas já começavam a dar sinais de fraqueza, ou às vezes arriavam de uma vez, ela se aperreava tanto que, com a urgência de quem vai fazer uma cirurgia de emergência, pedia a gente para ir a mercearia comprar os “carregos” — era assim que ela chamava.

Acho que no horário da benção da noite o som vinha de alguma antena parabólica celeste, pois neste momento o radinho parava de chiar; a canção das 18h, a Ave Maria Sertaneja, imortalizada na voz de Luiz Gonzaga, tinha um som limpo, angelical e marcante. Ao término da música, assim ela acreditava, a noite chegara.

E a noite chegava de bom tamanho no dia de fogueira no beco. Era a hora exata de vô se dirigir em direção à estrutura de madeira (a fogueira) que já estava montada, enfeitada e abastecida, ficando pronta para ser acesa.

Parecia que era ele quem comandava todas as fogueiras do beco, porque quando ele saía para fora de casa segurando com a mão direita uma latinha com um jacaré azul desenhado, e na mão esquerda uma caixinha de fósforo, todos da rua já se dirigiam para suas posições para a cerimônia de acender a fogueira — eu sempre achava que a cerimônia na noite de São João parecia ser mais intensa do que as noites das demais fogueiras.

O mesmo ritual era repetido pelos demais adultos do beco, onde quase noventa e nove por cento das casas estavam com as madeiras organizadas, às vezes unidas com fio de arames, só esperando o fogo chegar.

Meu avô se abaixava, olhos fixados nos pontos das amarrações, últimas checagens nos arames que mantinham unidos os troncos principais; quando necessário, realinhava os dois trocos de apoio que ficavam na parte debaixo, em ângulo de noventa graus com as madeiras de cima. Entregava a mim aquela latinha, já com um pequeno furo na parte superior, mas mantinha em suas mãos a caixa de fósforo, e apontava os locais exatos nos quais teria que jogar o líquido amarelado.

Antes de riscar o fósforo ele me mandava sair de perto, apontava para a minha avó na calçada — sentada em uma cadeira espreguiçadeira de pano — indicando que eu deveria ir para lá. Eu corria para perto dela, embora não tirasse os olhos da madeira e do fósforo que vô segurava.

— Vai ser agora! — disse vó, mais animada do que eu, quando percebeu vô segurando o fósforo em chama.

— Vai sim, vó!

Ele fitou novamente os troncos que já soltavam as cascas, olhou a sua direita e a sua esquerda para se certificar de que os demais presentes, naquele momento tão único, haviam se posicionado; mirou no local onde eu tinha enxarcado os gravetos e os troncos com o líquido amarelado que vó chamava querosene, jogou o fósforo na direção dos troncos molhado com querosene.

Quando o fósforo caiu no ponto demarcado, as chamas se espalharam num instante. O rosto de vô foi tomado por um clarão que mostrava as marcas do tempo e iluminava um discreto sorriso de missão cumprida.

Se São João Batista estivesse vendo aquela cena, haveria de aplaudir vô por todo o firmamento, sorrindo diante de sua fé e de sua gratidão por realizar, mais uma vez, aquela antiga e simbólica cerimônia pagã.

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