Livre estou, livre estou…

O mês de junho me traz boas lembranças da infância. Era uma época aguardada com ansiedade, pois, junto com ela, chegavam o recesso escolar e as férias na casa da minha avó.

Eu estava livre, livre mesmo, livre das tarefas escolares e dos horários rígidos dos dias de aula. Tão livre que, se o desenho animado Frozen: Uma Aventura Congelante já existisse naquele tempo, eu teria cantado aos quatro ventos: “Livre estou, livre estou…”. Entretanto, o filme só foi lançado em 2014, e as recordações de que falo pertencem aos idos da segunda metade do século XX.

Sim… era uma liberdade quase absoluta. E, para completar aquele momento apoteótico, a felicidade seguia em vento em popa.

Eram dias de novas aventuras, daquelas que nos faziam chorar sem querer de tanto rir; dias de reencontrar os “velhos” amiguinhos e de escutar histórias de assombração contadas pelos mais velhos. Entre todas elas, eu gostava mais da história do Boitatá.

Assim, eu saía da normalidade de uma casa comum, que aos olhos de menino parecia viver em alguns tons mais discretos, para entrar num mundo de cores. Junho tinha esse poder. Bastava atravessar a porta da casa encantada da minha avó para encontrar bandeirinhas dançando ao vento, o cheiro das comidas de milho escapando da cozinha e os estampidos dos fogos anunciando que a festa já começara.

Na casa da vovó, o medo da noite e o fuzuê do dia eram o combustível que alimentava a curiosidade e o atrevimento. Cada canto parecia guardar um mistério; cada ruído, uma promessa de descoberta.

Essa casa de tons mais discretos era a de meus pais. Como tantos outros pais responsáveis, eles cuidavam das crias, estabeleciam limites e exerciam a vigilância necessária à educação dos filhos. Havia certo controle, é verdade, mas tudo dentro da mais absoluta normalidade.

Já na casa de minha avó — ou talvez fosse o próprio mês de junho agindo sobre a imaginação de um menino — tudo parecia maior, mais vivo e mais colorido. Os balões riscavam o céu, os fogos espantavam o silêncio da noite, e a liberdade das férias fazia o resto.

Pelo menos era assim que eu enxergava o mundo, com os olhos de uma criança para quem junho não era apenas um mês, mas uma estação inteira de encantamento.

A casa encantada

CONTINUA NA PRÓXIMA POSTAGEM. AGUARDE!