À medida que se avança na idade mais se adquiri experiência para encontrar maneiras de como engolir sapo sem que este venha trazer algum dano na vida, ou, ainda melhor, evitar engolir mais sapo.

Desde criança fui treinado a beber substâncias repugnantes. Líquidos como banha de tejo, banha de galinha, óleo de copaíba, unguento de infusão de ervas, todos tinham sabores encorpados, alguns até me causavam arrepios ao ingeri-los. Na época não entendia porque tinha que engolir aquilo, mas diziam que era para a saúde.

Hoje, diferentemente, o que engulo — ainda que seja bastante amargo — não são os líquidos de outrora, mas atitudes desconforme com aquilo que entendo por certos. Todos nós já passamos pelo desconforto de ver e ouvir certos desaforos, mas para manter o bom convívio a gente se cala diante disso.

Tenho ciência que aceitar certas atitudes desconfortáveis de outrem, o que eu chamo de “engolir sapo”, é causa para futuras frustações, assim dizem os terapeutas.

Diferentemente de comer sapo, o ato de engolir, metaforicamente, é tão asqueroso quanto literalmente. Aquela coisa pegajosa, escorregadia, que coaxa, levada em direção à boca — antes mesmo de se cravarem os dentes na pele úmida, viscosa e carregada de secreções tóxicas — esperneia em desespero. O corpo frio se debate, as patas se agarram ao que encontram, numa resistência inútil contra o inevitável.

Vou poupar o leitor dos detalhes mais gráficos; deixo, por conta e risco da imaginação de cada um, para completar a cena desse ritual.

É certo que não temos como evitar o “engolir sapo”. O convívio social exige proximidade, e toda proximidade produz atritos. O afeto traz consigo certa renúncia, posto que inevitavelmente alguém será afetado pelas atitudes do outro.

A tolerância, dizia André Comte-Sponville, só vale contra si e a favor de outrem. Mas atenção: tolerar não é resignar-se. Diferentemente do engolidor de sapos, no qual sofregamente aceita o desconforto para que o outro viva seus prazeres libertinos.

Devemos, então, tolerar certos desaforos? Claro que não. Há uma medida para todas as coisas, dizia o poeta romano Horácio.

Há sapos que se engolem por diplomacia; outros, por medo. O primeiro preserva a convivência, o segundo corrói a dignidade.

No entanto, mesmo engolindo por diplomacia, não deixa de ser uma prática de coerção de alguém para preservar a liberdade do outro de dizer o que pensa ou fazer o que quer — o que fazemos por coerção, não fazemos por amor, dizia Kant. E o processo digestivo da coisa será sofrível — sapo é bicho de brejo, além do mais, tóxico.

O acúmulo emocional daquilo que não é dito reverbera na psique e poderá provocar futuras explosões de ira, acarretando danos ainda maiores à relação, além de favorecer o adoecimento psíquico.

Mas não é somente nas relações afetivas que se engole sapo; há situações em que as pessoas o engolem por dependência: no trabalho, na escola, na igreja e em tantos outros ambientes da vida cotidiana — filas, supermercados, hospitais —, isto é, nas pequenas e constantes injustiças do dia a dia.

Eu, por exemplo, já engoli muitos — embora, em certas ocasiões, continue engolindo. Contudo, sempre busco medidas a fim de evitar o indigesto. Sim, para nossa sorte, temos o poder de evitar, em certas circunstâncias, ser um engolidor de sapo.

Basta manter-se distante daquilo que poderá ser um potencial sapo indigesto. No mais, devemos saber que há coisas que é possível assimilar; no entanto, há outras que não merecem ficar dentro de nós. Algumas precisam ser vomitadas, a fim de expurgar o que há de ruim, expulsar o brejo que fica dentro de nós, assim como o organismo expulsa substâncias tóxicas.