Desde que entrei na educação, volta e meia sou inquirido por alunos sobre minhas escolhas na vida, a maioria quer saber se eu sigo a cartilha do momento: “Você acredita em Deus?”, “Torce por algum time de futebol?”, “É casado?”, “Tem filhos?”

São perguntas de cunho muito pessoais. Normalmente evito dar opinião sobre minhas escolhas, pois na maioria das vezes elas vão contra as preferências das massas.

Quando respondo negativamente estas perguntas muitos fazem uma expressão curiosa — algo como em estado de espanto, com o rosto de quem provou suco de limão sem açúcar.

Creio que estes tipos de perguntas existem porque estão ligadas ao meio social, e a “cartilha” comportamental, do qual eles estão experienciando, visto repetirem certos padrões de perguntas.

Curiosamente, nunca me perguntaram: “Como posso aprender a estudar melhor?”, “Para que serve aprender esta disciplina?”, “Você gosta de estudar?”, “Como você estuda?”, “Que livros já leu?” E pensar que num ambiente escolar essas são as que deveriam ser as perguntas mais naturais.

Todavia, as perguntas não me incomodam quando elas estão dentro de um contexto no qual eu possa dar opinião do que seja mais pragmático para eles, e que possa abrir caminhos para um real aprendizado escolar.

É papel da escola formar pensamento crítico capaz de superar curiosidades superficiais. O pensamento complexo exige cognição, conhecimento aprofundado — não é só dar um Google e achar que já sabe; é estudar de verdade, refletir, quebrar a cabeça e ir além do óbvio.

Mantenha o pensamento sempre atento: eis o grande segredo — como já ensinava Sertillanges em A Vida Intelectual. Mas esse exercício não é simples, sobretudo quando lidamos com a juventude e seus impulsos.

E não são somente as perguntas que estão fora de um contexto formativo; são também os impulsos desnorteados. A juventude, independentemente da época, é sempre afoita. Formá-los com pensamento crítico não é tarefa fácil: requer constância na repetição do que é importante para os estudos, bem como a compreensão de seus direitos e deveres dentro do espaço escolar.

Claro, para isso é preciso que consigam conter — ou melhor, ressignificar — alguns dos frenesis próprios da idade. A juventude transborda energia, e os impulsos acompanham essa força natural.

Podemos ver isso em diversos livros da literatura clássica. Aqui, destaco um trecho bastante representativo do Canto VI da Ilíada, de Homero, quando Heitor conversa com sua esposa Andrômaca. Ali, mesmo consciente dos riscos, ele demonstra aquela coragem impulsiva típica da juventude — preferindo a honra no campo de batalha à segurança da vida familiar.

Se há algo que a experiência me ensinou, é que o problema não está nas perguntas, mas na direção delas. Perguntar faz parte da juventude; aprender a perguntar bem é tarefa da educação. É aí que começa, de fato, a formação do pensamento crítico — que, por sua vez, ressignifica os impulsos e os orienta para aquilo que realmente importa: a formação do cidadão.