O tempo que tenho para ser pai, não é o tempo de ser pai como gostaria, porque o tempo era do outro, de um outro que consome o vago tempo que o pai teria se fosse realmente assumir a paternidade.

Paradoxal é ter o tempo de pai nascido dentro do tempo do outro, que embora o tempo do outro tenha sido a fumaça que revelou a existência do fogo, é, ao mesmo o tempo, água que encharca a madeira e impede o fogo do tempo do pai.

O tempo do pai, embora curto, soma-se ao tempo do outro, que é maior. E por ser maior, lança sua sombra sobre a chama paterna, como uma fogueira que ofusca a luz de uma vela.

Consola-me pensar que o tempo do pai, ainda que curto, talvez até irrisório diante da vastidão do tempo do outro, seja semelhante ao fogo dos deuses: não o mais alto nem o mais visível, mas aquele que resiste ao vento e às águas.

Talvez somente as almas mais sensíveis percebam o calor dessa chama discreta, que continua ardendo quando o pai que não teve tempo, enfim, encontra tempo para ser pai.