Imagine a cena:

Você sai de um atendimento demorado — eu, particularmente, não tenho muita queixa quanto à demora, haja vista que sempre ando com um livro comigo, seja físico ou virtual. Leio tranquilamente, independentemente de estar em um local movimentado ou mais calmo. Mas, naquele dia, a demora foi muito além do esperado. Até que a moça anunciou:

— Foi problema no sistema e, para piorar, o médico não pôde vir. Ocorreu um problema de última hora.

Não vou explicar aqui o que aconteceu logo depois do informe da moça. Seria revelar os desaforos e ter de escrever palavras feias — ou usar vários símbolos, tipo esse: “#$&&%@##$@”. Melhor não. Vamos nos concentrar em outro momento: o do elevador.

Pois bem… Logo após o comunicado, todos saíram esbaforidos de raiva. A reclamação era geral: uma senhora, com uma criança no braço, dizia que tinha saído de casa às pressas, sem tomar café, e que a criança só havia tomado leite; um senhor, de uns sessenta e cinco anos, disse que tinha comido, bem cedinho, uma sopa de feijão; outro, de uns quarenta, disse que só tinha comido ovo com pão; uma outra senhora relatou que, embora tivesse comido repolho refogado e uma omelete, estava sentindo náuseas de fome por ter que aturar tanta raiva logo cedo. Alguns diziam que não tinham comido nada naquele horário; outros ficaram calados. Eu tinha tomado meu café tranquilamente, como de costume: papa de aveia com mel e castanhas, além de ovos e queijo.

Eram mais ou menos nove e cinquenta da manhã, em uma clínica localizada num prédio de nove andares. Todos saíram reclamando e se dirigiram ao elevador. Eu tinha chegado primeiro e apertei o botão para chamá-lo até aquele setor, no nono andar.

Na porta do elevador estava escrito: “Quinze pessoas, no máximo.”

Mais da metade daquele grupo entrou no elevador, incluindo eu. Como tinha chegado primeiro, também fui o primeiro a entrar. Assim que passei pela porta do elevador, apertei o botão “T” (térreo), que acendeu uma luz ao redor, sinalizando que havia sido pressionado. Percebi que todos os que entravam olhavam para o botão em destaque, porém ninguém apertava os demais. Ou seja, todos iriam para o mesmo lugar que eu.

Embora o aviso na porta informasse que a lotação máxima era de quinze pessoas, notei que o responsável por aquela informação não levou em conta que as pessoas também variam em volume. Tinha gente ali que valia por duas; outro era um imenso varapau; outros excediam pelas laterais e, ainda, havia os que excediam pelo traseiro.

Ombro perto de ombro, pé perto de pé — a proximidade era tanta que era possível ouvir a respiração e sentir o hálito do outro. Se ocorresse ali qualquer arroto, seria possível perceber se a pessoa estava há algum tempo sem se alimentar ou até mesmo descobrir o que tinha comido.

E foi assim que todos procuravam ganhar algum espaço naquele pequeno quadrado. A senhora que segurava a criança balançava-a junto ao colo e parecia usá-la para espantar quem estivesse muito colado nela. Outro olhava o celular. O senhor da sopa de feijão e o homem do ovo com pão mantinham os olhos no indicador dos andares. Duas adolescentes olhavam o Instagram; duas senhoras, de mais ou menos trinta anos, pareciam usar o WhatsApp. E eu observava tudo.

Depois que todos se aprochegaram naquele aperto e uma das pessoas retirou a mão da porta — pois a segurava para que as demais entrassem sem que ela se fechasse —, o silêncio tomou conta de todo o espaço. Eu até conseguia ouvir a respiração daquele povo confinado. O elevador, em sua capacidade máxima, descia na velocidade programada; lentamente, o visor marcava a passagem dos andares.

De repente, quando passávamos pelo sétimo andar, uma mudança nos odores daquele ambiente foi percebida. Um cheiro forte e insuportável tomou conta do elevador. O silêncio deu lugar a vários funga-fungas. Uns fungavam daqui, outros dali. Uma senhora, com cara de barraqueira, foi a primeira a quebrar o silêncio:

— Que povo sem educação é esse? Vão cagar no mato!

Duas adolescentes, que acessavam o Instagram, deram risadas meio envergonhadas; algumas pessoas sorriram com os dedos tampando o nariz. Um senhor de terno, que parecia ser empresário ou pastor, apoiou a manifestação da senhora da boca mole, embora tivesse rejeitado a forma primitiva da fala, quando exclamou, corrigindo-a:

— Verdade! Ô povo de má educação. Tanto sai por cima quanto por baixo.

Embora boa parte dos confinados tentasse evitar que o odor entrasse nos pulmões — algo impossível, visto que precisavam respirar —, houve um momento em que todos começaram a se entreolhar, procurando descobrir quem tivera a audácia de liberar aqueles gases putrefatos. Um rapazote, que me parecia amigo das adolescentes, disse que alguém tinha comido carniça. Acrescentou que aquele peido tinha o mau cheiro de ovo podre.

A barraqueira completou:

— Ovo e repolho.

Aquilo provocou a senhora do repolho, que respondeu que só não dava uma boa resposta porque ali tinha criança.

Eu fiquei calado durante toda a descida do elevador. Alguns já começavam a se estranhar, afirmando, às vezes direta, às vezes indiretamente, quem poderia ter feito aquilo. Eu só pensava em levar a situação na brincadeira — embora aqueles gases tivessem potência em fedor — e dizer que quem liberou o produto tinha uma pena na cabeça.

Só não disse porque tive receio de a pena estar sobre mim, pois já aconteceu de alguns desses gases saírem sem o meu consentimento, devido a algum deslize no controle dos meus esfíncteres. Mas eu estava seguro de que não tinha sido eu. Aquela potência toda deveria ter saído com temperatura elevada, e eu não havia sentido nada.

O elevador atingia o quarto andar, e aquele pum misterioso continuava sem identificação. Todos ali confinados se entreolhavam, como se quisessem deixar bem claro, apenas com os olhos, que não tinham sido eles.

Quando o mostrador registrava o primeiro andar, ouviu-se alguém, atrás de mim, dizer:

— Eu queria ver a cara de pau dessa pessoa se o peido fosse colorido. Não teria como se esconder.

A porta se abriu. Todos saíram apressados, cada um seguindo seu caminho. O peido, felizmente incolor, preservou para sempre o anonimato de seu autor.

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