Todos estão preocupados, mas consigo mesmo. Olhamos, tão somente, para nosso próprio umbigo — essa autopreservação é instintiva — na tentativa de mantermos vivos, assegurar nossa sobrevivência.

Contudo, e em certas situações, esta força instintiva deve ser controlada. É aí que entra o processo civilizatório no qual as regras de comportamento são necessárias para mitigar à vida privada algumas atitudes aversas ao ambiente público.

Assim sendo, e para evitarmos conflitos entre nós, sociedade, fez-se necessárias instruções de convivência, o que chamamos de leis (refiro-me as leis democráticas).

Alguns dos nossos desejos não se encaixam bem com o formato civilizatório, estão aquém das obrigações cidadãs, posto que somos, também, seres egoístas (que passam por cima de preceitos éticos e morais) — não confunda egoísmo com autocuidado — a referência em destaque é a indiferença ao outro.

As regras são necessárias para mantermos nossa civilidade diante do outro. Não nascemos civilizados, somos treinados para tal. O artigo 1° da Constituição Federal Brasileira assevera que devemos nos organizar em uma sociedade justa e estável, cuja relação de poder deve oferecer mais benefícios que prejuízos.

Somos cheios de defeitos em comparação com as normas sociais. Alguns acreditam que não têm defeitos, mas basta um aperto na vida, ou ainda, a sensação de que é o tal, ou a tal, para que a coisa mude de direção. O lado primitivo assume a parada.

Vale lembrar que certas pessoas têm bastante facilidade de sair dessa linha civilizatória: com um pouquinho de alegria esquecem o tal “próximo” — estranho de tão longe, mas conhecido por estar tão perto. Além de não lembrarem (ou fingirem que não lembram) das regrinhas do bom convívio, estragam o pouco que ainda resta para o estranho de tão longe, que está tão perto.

Foi assim, ou, melhor, continua assim, em todos os réveillons, em todas as festanças, em todo o momento em que Dioniso parece estar presente. Aqui pelo litoral cearense e riograndense, a turma do “cheguei, e daí!” não se importa com os outros, carece de civilidade. Sobra-lhe a má educação, falta-lhe o respeito pela natureza, ausenta-se a moral.

São estas pessoas que quando denunciadas, por conta das molecagens, buscam urgentemente os seus direitos. Os mesmos direitos nos quais eles não concederam aos outros.

Pessoas como estas, sem noção de grupo, deveriam ficar em suas casas para incomodar somente os seus pares. O espaço público deveria ser somente para aqueles que conhecem e praticam as regras de convívio.

Viver dói, como dizia Clarice, mas a dor é maior ainda naqueles que sentem o incomodo de viver próximo daquele que acredita estar sozinho, no meio de tanta gente, em ambiente público, onde acha que deve quebrar as regras do bom convívio.

É essa coisa passível de controle, que escapa por conta da falta de conveniência de alguns participantes. É o descaramento da ideia de que “eu posso, e daí!”  — que na verdade não pode, segundo leis.

Essa coisa tipificada chamo de ignorante social consciente (aquele que sabe que não pode, mas faz; e que desconhece — ou finge desconhecer — a ação perniciosa em curto e logo prazo de seus atos).

É sempre bom lembrar a frase atribuída ao filósofo inglês Herbert Spencer, na qual tomei emprestada para ser o título desta crônica: “A liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro”.