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Da Faísca ao Estrondo
Lá fora, no beco, como chamávamos a rua onde vó morava, algumas casas usavam balões e bandeirinhas em papel de seda. A rua era movimentada de meninos e meninas brincando, “gritando nas calçadas” — dizia minha avó, e adultos conversando, aliás, fuxicando.
Um momento marcante era quando vovô chegava do trabalho, trazia com ele algumas caixinhas de chumbinho, dentro de cada pacote havia pólvora enrolada em papel, misturada com areia fina ou serragem de madeira. Ao receber as caixinhas, corria para mostrar aos meus amiguinhos do beco, era uma festa para nós, sabíamos que tínhamos uma boa distração para começar a noite.
No entanto, ao sentarmos no chão da calçada entrávamos no momento de tensão. Todos com os olhos esbugalhados para as duas únicas caixinhas do momento, era hora de presenciar quantos chumbinhos tinham ali dentro. Começamos a separar o pó da serragem, ou a areia, para que ficássemos somente com o que nos interessava — às vezes, a caixinha vinha com muito pó de serragem e poucos chumbinhos.
Todos olhavam atentamente para o conteúdo da caixa, alguns apertavam os lábios, ou apertavam os dedos nas mãos, outros puxavam as sobrancelhas para baixo e para dentro, contraindo os olhos, e outro até babava em cima do pó — que, sob protesto dos demais, recuava, limpava a baba com as mãos sujas de modo que a boca ficava com uma marquinha de terra úmida, com enfeites negros da sujeira acumulada.
Era sempre aquela angústia:
— Omi, dessa vez vai vir muito chumbinho, né? — eu perguntava quase sem esperança.
— Abra logo isso aí, vai! Se der ruim a gente brinca com o pozinho — dizia outro mais otimista.
Todos nós ficávamos apreensivos, pois o resultado daquela contagem definia tudo: se viesse muito chumbinho, eu partilhava com eles; se viesse pouco, eu sozinho era quem comandava a peleja, organizando quem podia pegar depois de mim.
Afinal, foi para mim, que meu avô trouxe, né?! Da mesma forma os outros amiguinhos faziam também quando chegava a vez de cada um trazer a caixinha comprada por seus pais. Seja como for, partilhando sofrimento ou a alegria, todos teriam a sua vez — cada um de nós, com seus egoísmos, vivíamos tranquilos. Bem…não tão tranquilos assim: aqui, acolá surgia uma confusãozinha. Contudo, a gente fazia as nossas regras, saía tudo bem.
Depois que a tensão passava, a gente jogava chumbinho no outro só para ver o estalo e a faísca sair quando do impacto do chumbinho no corpo do coleguinha. A brincadeira durava até que a caixa esvaziasse por completo; enquanto existissem aquelas pedrinhas cinzas enroladas em papel branco a gente estaria feliz.
Não interessava se eu era quem comandava a bagunça ou se era outro. Mas a nossa brincadeira não ficava somente nisso. Queríamos mais, mais aventura, daquelas de tremer o fundo da calça.
A gente, então, por debaixo dos panos (às escondidas), conseguia (não me pergunte como; era um amiguinho meio malévolo, de outro grupo, que conseguia aquilo para a gente) ter acesso às bombinhas mais potentes como a borboleta, o traque e a bomba-bujão. A gente tramava quem iria colocar a ignição relógio na bombinha mais potente (uma ponta de cigarro acesso escorado na ponteira da bombinha) de modo a dar tempo para corrermos e não sermos pegos pelos adultos.
O mais interessante era que um dos nossos amiguinhos trazia, embaixo da camisa, uma panelinha da cozinha da casa dele para abafar a bombinha bujão e ver até que altura ela iria — na maioria das vezes a panelinha quase nem saía do chão, pois era destruída imediatamente antes de ser arremessada pela potência da bombinha bujão.
A brincadeira chegava ao fim quando esgotávamos todos produtos explosivos ou quando era a hora de acender a fogueira.
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