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O moinho que comeu meu dedo
Em casa, enquanto meu tio não chegava, e ao som das músicas de forró pé de serra, eu e minha avó preparávamos o moinho, um velho moinho de cores meio cinza, meio pretas; minha avó dizia que ele era encardido. Era eu quem montava as peças: a manivela, a engrenagem de corte e, por fim, fixava o moinho à mesa, apertando um longo parafuso.
Com a chegada do milho, entrávamos em outra fase: retirar a casca e debulhar os grãos da espiga. O trabalho era feito manualmente; os dedos, úmidos, ficavam cobertos pela pele do milho. Em seguida, eu colocava os grãos no moinho e os empurrava com os dedos.
Foi nessa época que o moinho, de tão burro que era, achou que meu dedo também fosse milho e moeu parte dele, sem dó nem piedade. Até hoje carrego a marca deixada em um dos dedos pelo monstruoso moinho.
Mas, como aquele era um mundo encantado, o caso foi resolvido sem que precisássemos ir ao médico. Embora sentisse o pulsar do dedo doído, agora embalado em uma tira branca que insistia em ficar vermelha, não parei de trabalhar. Estava com muita raiva do moinho, e foi essa raiva que me fez acelerar o processo.
De tanto esforço e da tortura imposta ao diabo da máquina, o moinho já começava a chorar, e suas lágrimas se misturavam ao “leite” do milho, aparado numa vasilha e, em seguida, levado ao fogão a lenha para o preparo da pamonha.
Com a sobra do bagaço, fazia-se o bolo de bagaço. E, quando tudo ficou pronto, o resultado era tão bom que esqueci a pulsação do dedo, nem lembrava mais da raiva que o moinho me fez passar; apenas me sentei e me lambuzei de canjica.
Com o bucho cheio, fui atrás dos amiguinhos e das amiguinhas. Enquanto eu pelejava com o moinho e ajudava nas tarefas de casa, estava por fora das novidades da rua e não sabia que o melhor da tarde ainda estava por vir.
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