Desde cedo, era acostumado a despertar uns dez a vinte minutos depois que o galo cantava. Não era norma da casa, mas eu mesmo fazia disso uma norma. Meu despertador natural raramente falhava; só pouquíssimas vezes acordava antes do galo cantar. Muitas vezes não me levantava da rede, mas me obrigava a permanecer acordado, já pensando no que teria de fazer assim que me levantasse. Sendo eu uma criança, imagine o que seriam esses deveres.
Arrumar a caixa dos meus brinquedos (bonecos) era um deles. Após uma tarde inteira de brincadeiras, juntamente com meus coleguinhas, tudo ficava desorganizado. A peleja era organizar os bonecos por ordem de força e coragem. A dúvida surgia quando havia um boneco corajoso, mas desprovido de força.
E agora? Em que posição colocá-lo? Algumas vezes eu o colocava em uma posição; no dia seguinte, mudava e, às vezes, em outro momento, voltava a colocá-lo no mesmo lugar da primeira vez.
Entretanto, eu tinha que deixar tudo organizado. Chovesse ou fizesse sol, lá estava eu, todos os dias, cumprindo aquela tarefa. A única exceção ocorria nas datas comemorativas de 7 de Setembro e 30 de Setembro, quando eu colocava tanto os bonecos quanto os carrinhos, as motos e os cavalos para desfilar na sala de casa. Nessas ocasiões, só voltava a organizá-los dois dias depois.
Fora isso, não recorria a subterfúgios para fugir daquela tarefa. Afinal, se a desordem era consequência das minhas brincadeiras, cabia a mim restabelecer a ordem. Simples assim!
Talvez tenha sido ali, entre bonecos fortes, fracos e corajosos, entre dúvidas de classificação e período de ócio que comecei a compreender, mesmo sem saber, uma coisa que considero importante até hoje: a responsabilidade pelo que fazemos. Não me recordo de procurar desculpas para deixar de cumprir aquelas pequenas obrigações.
Entretanto, com o passar dos anos, fui percebendo que, no mundo dos adultos, as justificativas parecem ter se multiplicado. O tal do jeitinho brasileiro, por exemplo, muitas vezes não passa de uma maneira engenhosa de evitar aquilo que deveria ser feito corretamente.
Mais recentemente, tenho observado outra situação que me chama a atenção. Não se trata mais do tradicional jeitinho brasileiro, mas de algo que, em determinadas circunstâncias, parece assumir a mesma função: encontrar uma justificativa para determinado comportamento.
Refiro-me ao uso indiscriminado de condições psicológicas ou transtornos como explicação para situações cotidianas. Em uma formação da qual participei, uma pessoa, de uns cinquenta anos ou mais, ao não compreender uma informação aparentemente simples, justificou-se com uma frase que tenho ouvido com certa frequência: “Eu tenho TDAH”.
O que significou, naquele momento, mencionar o TDAH? Seria apenas uma explicação para a dificuldade de compreensão ou uma maneira de encerrar o assunto sem precisar dizer simplesmente: “Não entendi”?
Tenho observado também pessoas que afirmam possuir determinada condição sem terem recebido um diagnóstico. Creio que, por trás de muitas dessas falas, esteja a desculpa para não ter a hombridade de dizer: “Eu não quero ouvir o que você fala, estou mais interessado nisto que estou fazendo”; ou, simplesmente: “Não entendi o que você quis dizer. Por favor, repita”.
Parece-me que, nos dias atuais, a criatividade humana anda mais ocupada em produzir justificativas do que em encontrar soluções. Se a inteligência dedicada às desculpas fosse empregada na resolução dos problemas, talvez tivéssemos menos problemas para resolver e menos desculpas para inventar.




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