Costumo dizer que cada aniversário que a pessoa completa é sempre um ano a menos —   alguns amigos e amigas aniversariantes até já se acostumaram quando digo isso, levam na brincadeira tal verdade inconveniente. Afinal, aniversários costumam ser comemorados como acréscimos. Eu, talvez por uma inconveniência matemática, costumo olhar também para o outro lado da conta.

Explico:

Vamos supor que você viverá até os 100 anos — o que considero difícil nos tempos atuais, já que a expectativa média de vida está bem abaixo disso. Assim sendo — e deixando de lado a vida pregressa, os hábitos alimentares e a genética —, suponhamos que os 100 anos sejam o limite. A cada aniversário, você não estaria apenas acrescentando um ano à idade; estaria também retirando um ano dos que lhe restam. Aos 50, por exemplo, não teria apenas vivido cinquenta: teria, nessa conta imaginária, outros cinquenta pela frente. Aos 70, restariam trinta. É claro que ninguém conhece o número final, e talvez seja justamente por isso que contamos para cima. Se soubéssemos a data da partida, provavelmente contaríamos para baixo.

Cada um pode entender essa conta como quiser: de maneira otimista ou pessimista. Mas não se trata aqui daquela velha discussão sobre olhar para um copo pela metade e enxergá-lo “meio cheio” ou “meio vazio”. O copo, neste caso, está sendo bebido. E, cheio ou vazio, um dia chegará ao fim.

Remetendo a Sêneca, conservo com mais diligência aquilo que não sei quando me faltará. Posso até achar que tenho muito tempo, mas, como disse o filósofo, não é que tenhamos pouco: desperdiçamos muito. Tenho também certa afinidade com o pensamento de Sponville: o importante é não mentir para si mesmo sobre a vida, tampouco desprezar suas lições. Talvez por isso faça tanto sentido a dica de Cicero: o tempo perdido jamais retorna e ninguém conhece o futuro. Contentemo-nos com o tempo que nos é dado a viver, seja qual for!

É a partir dessa ideia, levando-se em conta uma visão mais realista da vida, que venho a considerar não ser mais possível perder tempo com coisas desgastantes, que consomem o tempo que ainda me resta. Há situações, preocupações e desgastes que se repetem tantas vezes que, em determinado momento, é preciso compreender que continuar dando a eles a mesma atenção é também uma forma de desperdiçar o tempo.

Essa ideia de atribuir valor ao tempo me faz lembrar do filme O preço do amanhã, lançado em 2011, dirigido por Andrew Niccol, o tempo de vida de cada personagem é demarcado por um relógio digital cujo mostrador é o próprio pulso da pessoa. Alguns personagens utilizam o próprio tempo de vida como moeda, outros são furtados e também roubados por gangues.

É bastante desagradável perder tempo com aquilo que não oferece retorno ao investimento feito. Sim, repito, investimento; e não estou falando de dinheiro, estou falando de algo muito mais valioso, o tempo da pessoa que foi enganada — posso até dizer furtada, e mais grave ainda, roubada. Dinheiro você recupera; tempo, não. Por isso, quase diariamente, logo quando acordo, vem a minha mente o Carpe diem de Horácio: aproveitar o tempo enquanto ele ainda nos pertence.

Outro problema que também considero falta grave é quando se “imobiliza” (leia-se: reserva) o tempo do outro ao marcar determinado encontro e, por motivos banais, desiste-se dele. Cada combinado, descombinado na sequência, é tempo subtraído daquele que se deixou à espera — posso até considerar que foi tempo furtado da vítima esperançosa.

É preferível estar na companhia de si próprio, na solitude (o estar só por escolha, sem o peso que geralmente acompanha a solidão), na qual seja possível manter o controle do próprio tempo, a estar acompanhado de outros sugadores de tempo. Há uma frase, frequentemente atribuída a Nietzsche, que segue bem nessa linha: “Não me roube a solidão sem antes me oferecer a verdadeira companhia.”

Contudo, e como somos seres sociáveis, é preciso entender que também é possível utilizar o tempo de maneira eficaz na companhia de pessoas do nosso agrado, mesmo que elas tenham vontades e atitudes diferentes das nossas.

Deleitar-se com alguém que nos traz conforto, que seja da nossa confiança e que carregue consigo a leveza de uma conversa sem o encargo de um papo formal — o que chamo de besteirol (e que alguns chamam de jogar conversa fora, ou ainda, conversa fiada) — traz uma certa paz. É o elixir da renovação social, um alívio temporário do peso da existência. Com essa pessoa não perdemos tempo; pelo contrário, somamos nosso tempo numa sintonia sutil, delicada e, por isso mesmo, frágil na simplicidade do instante.

Com o aumento da idade — ou, visto por outro ângulo, com o decréscimo do período de vida —, vai-se percebendo a importância de valer-se bem do tempo.

No meu caso, faço questão de acolher a pessoa capaz de partilhar ideias afins; não significa dizer que sejam iguais às minhas, mas que sejam livres do otimismo como cegueira (o otimismo barato), que tenham consciência — no sentido de estar acordado para a vida — e que façam valer o instante que temos doado um ao outro. Afinal, se o tempo é aquilo que não podemos recuperar, há pessoas com as quais não podemos mais perdê-lo; mas há outras com as quais partilhá-lo talvez seja uma das melhores maneiras de fazê-lo valer.

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