Há muito tempo, e isso faz um bom tempo mesmo, um professor meu sentou-me à mesa e me disse a seguinte frase:
— Regras existem para serem cumpridas.
Como era muito jovem (leia-se: novinho) fiquei sem entender o que ele quis realmente dizer. Mas não ficou somente nesta frase, logo em seguida ele perguntou:
— Você entendeu?
Eu, tremendo de medo, balancei a cabeça dizendo que tinha entendido. Porém, ainda tinha dúvida. Na minha mente martelava a pergunta: Por que o professor estava brigando comigo, se Bolinha havia me deixado ficar?
O professor, ao me fitar, parecia ler a minha mente.
— Se seu amiguinho deixou você ficar na frente dele também errou; porque, atrás de você, além de seu amiguinho, havia mais de vinte pessoas à espera da merenda. Na verdade, para entrar na frente deles, você teria que pedir a cada um. Então, você não tomou apenas a frente do seu amiguinho, você tomou a frente de mais de vinte pessoas. O correto era que você deveria ter ido para o fim da fila.
Desde então, a frase ficou na minha mente: “regras existem para serem cumpridas”.
Alguns anos depois, em uma fila de banco — na época em que os pagamentos das faturas de cartão de crédito, água, luz e telefone eram em agências bancárias — encontrei um amigo que já estava quase para ser atendido no caixa; ele era o terceiro da fila, e eu, como tinha chegado naquele momento, seria o último da fila, no trigésimo quinto lugar.
O meu amigo, ao me ver, acenou para mim, pedindo os papéis. Ele queria que eu lhe entregasse os meus papéis e o dinheiro para que pudesse fazer o pagamento por mim. Naquele momento, lembrei-me do professor e da sua frase, que ainda martelava na minha mente. Imediatamente, recusei a oferta do amigo.
Hoje em dia já escutei alguém dizer: “é preciso flexibilidade também com as regras”. Já ouvi até a frase: “nem tudo no branco, nem tudo no preto; às vezes é necessário o cinza”.
Concordo com a proposta budista do “caminho do meio”. Os extremos, seja para o bem, seja para o mal, não é o ideal para uma boa vida.
Contudo, se a ideia é haver flexibilidade dentro de uma regra, ou seja, se o cinza também deve aparecer, que essa tal flexibilidade esteja prevista na própria regra. Porque, sem um parâmetro para saber quando se deve ou não flexibilizar, em quais condições de temperatura e pressão, poderemos ter um problema (ou vários): aquilo que se permite a uns poderá ser negado a outros.
Dessa forma, os princípios da igualdade e da isonomia poderão ser comprometidos. Afinal, como diz o velho ditado, “pau que bate em Chico bate em Francisco”. Ou, pelo menos, deveria bater.
A flexibilização da regra não pode favorecer uns e desfavorecer outros. Esse tipo de flexibilização me faz lembrar uma distopia: A Revolução dos Bichos, de George Orwell, cujo título original é Animal Farm, também traduzido como A Fazenda dos Animais.
No livro, os porcos alteram, gradualmente, e em favor deles, os Sete Mandamentos que estão pintados na parede do celeiro. A mudança mais radical é quando Napoleão, o porco líder, apaga os demais mandamentos e deixa somente a seguinte regra: “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que os outros.”
Fico com a frase do professor: “Regras existem para serem cumpridas”. Porém, acrescentaria algo mais: “E elas têm de valer para todos, assim como as exceções”.




Deixe um comentário