Estava eu a perambular pelo Centro da cidade quando resolvi passar pela Travessa Martins Vasconcelos, que o pessoal daqui chama de Beco dos Artistas. O beco fica bem na lateral do prédio histórico da União dos Artistas de Mossoró. É uma pequena via situada bem próxima da Praça Vigário Antônio Joaquim (a praça da Catedral); ao seu lado fica a sede do Banco do Nordeste Cultural (BNB Cultural), onde anteriormente funcionava o Teatro Estadual Lauro Monte Filho. Certo? Pronto! Para efeito de localização, já trouxe o endereço quase completo.

No entanto, esse não é o meu foco principal. Ali, naquele espaço público, entra em cena a chamada responsabilidade social. Interessa-me saber que tipo de arte foi praticada depois que terminou a arte. A arte de produzir lixo? A arte de divertir-se sem assumir o resultado da diversão? Não sei quem foram os artistas da noite anterior. Sei apenas que, pela obra deixada no chão, não pareciam muito afeitos à arte da civilidade.

É fato! Não presenciei a festa, mas cheguei a tempo de conhecer sua ressaca. Garrafas, copos, fitas, papéis e embalagens contam silenciosamente o que aconteceu. Se aqueles que deixaram seus utensílios de entretenimento tivessem um pouco mais de responsabilidade social, talvez pudessem se inscrever na turma dos filósofos utilitaristas: aqueles para os quais o bem-estar deveria alcançar o maior número possível de pessoas. Afinal, felicidade geral é coisa um pouco diferente de felicidade pessoal.

Será que esses artistas eram adolescentes, daqueles que querem salvar o mundo, mas não arrumam o próprio quarto? Faço aqui uma referência a Pondé, que retomou uma ideia associada a Jordan Peterson, psicólogo clínico e professor canadense, que, grosso modo, recomenda colocar a própria casa em ordem antes de sair criticando o mundo.

Adolescentes ou não, o fato é que o problema estava lá, bem na cara — ou melhor, no chão e pendurado. O engraçado disso tudo (para não dizer vergonhoso) é que, em uma das imagens, havia a seguinte frase: “Nenhum direito a menos”. Achei até alvissareiro.

Entretanto, ao passar os olhos pelas demais paredes, a fim de verificar se havia outra frase do tipo “Nenhum dever a menos”, percebi que não. A frase contrastava com os objetos logo abaixo, abandonados. É uma pena! Para esses tais artistas, parecem existir muitos direitos e poucos deveres. Na civilização do espetáculo, dizia Llosa, o cômico é rei.

Agora me veio uma dúvida, caros leitores e caras leitoras: estariam esses artistas incluídos na tal civilização do espetáculo, de Llosa? Para o autor, trata-se de uma civilização em que o entretenimento ocupa lugar privilegiado na escala de valores e na qual divertir-se e escapar do tédio se tornam uma espécie de paixão universal.

Talvez Bauman ajude a compreender melhor esses nossos artistas quando afirma que “o indivíduo é o pior inimigo do cidadão”. O indivíduo vai ao beco, diverte-se, bebe, come e usufrui daquilo que o espaço lhe oferece. O cidadão talvez fizesse tudo isso também, com uma pequena diferença: ao ir embora, lembraria que o beco continuaria ali — e que os outros também.

“Pensar”, e aqui cito Camus, “é reaprender a ver, dirigir a própria consciência”.

Saí do Beco dos Artistas sem saber quem eram os artistas da noite anterior. Mas uma coisa eu soube: da arte que deixaram espalhada pelo chão, não pretendo visitar outra exposição.

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