Eram 16h de uma tarde ensolarada e quente, ela saía de casa para um encontro, o primeiro encontro. Conheceram-se pelas redes sociais. Estava feliz — sabia que ele era o rapaz ideal pelas qualidades que havia lido e visto em seu perfil, além de tantas outras conversas ao telefone.

As fotos postadas em seu Instagram faziam referência a um rapaz, de dezoito anos, de boa aparência, família de classe média, simples e responsável. Namoravam virtualmente a um ano, em pleno período da pandemia da Covid-19.

Sua mãe, Maria Das Dores — com todas as dificuldades de uma mãe separada do marido, não tinha instrução formal, dedicou-se exclusivamente a educação da sua única filha — a educara com esmero. Contudo, de um certo tempo para cá, Das Dores notara a sua filha muito reservada, trancava-se no quarto por horas. Ela pensava que fosse por conta do isolamento social.

— Você está doente, Eduarda? — Não sai desse quarto, passa o dia todo enfurnada — disse com voz branda, na espera de uma resposta imediata. — Você está doente, Maria Eduarda?! — disse novamente, depois de alguns minutos sem receber uma resposta, agora pronunciando os dois primeiros nomes da filha com voz mais enfática.

— Ei, mocinha, estou falando com você! — disse outra vez, mas agora a sua fala veio com a força de quem dá uma ordem, na qual não se espera algo, mas se exige uma posição.

— Tô não, mãe — respondeu Maria Eduarda, do outro lado da porta, entendendo que teria, no mais que de repente, responder, antes que o seu quarto fosse invadido pela mãe.

— Então fale! — ora essa!

— Estou falando, mãe.

— Ainda nem atingiu a maioridade e já acha que pode ser a dona do seu próprio nariz. Enquanto estiver debaixo deste telhado sou eu quem dá as ordens aqui, entendeu?! — disse Das Dores ao aproximar o seu rosto da porta do quarto onde estava Maria Eduarda.

Das Dores estava há vários meses incomodada com a filha por ela fazer uso contínuo do celular. Deu duro para comprar aqueles aparelhos, um para ela e o outro para filha, diminuiu os horários de folga em casa e aumentou seus horários de prestadora de serviço. Ultimamente Das Dores trabalha em uma residência na qual seus patrões são médicos.

Para chegar ao local de trabalho, ela pega dois ônibus e um metrô. Todos os dias, exceção aos sábados e domingos, ela sai às 4h30 da madrugada de casa e chega em seu serviço às 6h50min. As horas trabalhadas de serviços domésticos não chegam a fechar o valor do salário-mínimo. Faz a complementação lavando roupas, as vezes até roupas de trabalho, dos servidores e servidoras de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) — conseguiu mais cliente por meio da sua amiga, Eloá, que é uma das servidoras de serviços gerais daquela repartição pública de saúde e que mora a alguns quarteirões da casa de Das Dores.

Certa vez, Eloá fora convidada por Das Dores para ir à sua casa — sempre que possível elas tiravam um tempo para repassar as novidades, ou mesmo, colocar as fofocas em dia. Ultimamente elas haviam diminuído muito as conversas presenciais, o WhatsApp passava a ser o instrumento bastante útil entre elas. Contudo, naquela manhã, Das Dores não foi ao trabalho — a patroa havia pedido para que ela fosse somente no período da tarde e ficasse lá até às 20h.

Ela viu a possibilidade de chamar Eloá para conversar pessoalmente, queria desabafar, contar tudo sobre as atitudes da filha — não suportava mais ficar com aquela angústia atravessada na garganta.  Eloá de pronto atendeu ao pedido, estava também de folga naquele horário, iria trabalhar somente no período da tarde.

Alguns minutos depois Eloá chega de fronte à casa de Das Dores, que já estava com a porta aberta à espera da amiga. Ela entra e é recebida com o “toca aqui” (um soquinho no ar) — gestos de baixo risco por conta da pandemia da Covid-19.

Das Dores, aparentando-se feliz pela presença da amiga, mas com um certo peso em suas feições, a convida para sentar-se no sofá. Inicialmente a conversa se deu na sala, onde os fatos mais gerais do momento foram discutidos, e em seguida, ao levar a amiga para a cozinha, Das Dores entra nos pontos mais particulares da conversa, as atitudes de sua filha, Maria Eduarda. Em baixa voz ela desabafou:

— Estou muito preocupada com Maria Eduarda — disse cabisbaixa, com os cincos dedos da mão direita apoiados na fronte —, ela está muito estranha.

— Ainda é sobre aquele problema, que você havia me falado? — perguntou Eloá, tocando uma das mãos no ombro de Das Dores, já sabendo que o assunto ainda era sobre o tema, mas preferiu que Das Dores ratificasse a sua suspeita.

— Sim, é sobre isso mesmo. — De uns dias para cá ela tem saído pouco do seu quarto. Está nele agora. Quando sai para tomar o café da manhã, ou mesmo almoçar, ela passa as chaves na porta. À noite, ela liga a caixa de som e a deixa em alto volume, muitas vezes peço para ela baixar — disse Das Dores, com os olhos já lacrimejando. Alguns segundos depois Das Dores eleva a cabeça, olha para Eloá e completa: — Está ocorrendo algo, e eu não sei dizer o que é.

— Eu acho que sei — disse Eloá com a fisionomia tensa.

— Valha! O quê?! E por que não me contou antes? — Das Dores eleva um pouco o tom da voz, como quem sente uma pequena indignação.

— Eu já vinha desconfiando, e já ia lhe contar, mas hoje, há pouco, antes de vir para cá, ouvi minha filha conversando com a sua. Elas sempre conversam por áudio pelo WhatsApp. Teve um momento em que ouvi a voz da sua filha ao dizer: “um encontro com ele” — disse Eloá, em voz baixa e próximo do ouvido de Das Dores.

— Encontro com ele?! Ele quem?! Diga logo, mulher! Diga logo… — disse Das Dores, com o coração palpitando.  

— Não sei lhe dizer, mas suspeito. Vou perguntar a minha filha. Ultimamente elas intensificaram o contato. Comecei a perceber algo estranho quando Clarisse, toda vez que vai falar algo em segredo, trancava a porta do quarto. Algumas vezes eu colocava o ouvido na porta para tentar escutar as conversas, mas ela aumentava o som da tv. Então, tanto você quanto eu estamos querendo explicações. Quando sair daqui terei uma conversa séria com ela. Assim que conseguir a informação te aviso — disse Eloá, de maneira resoluta.

— Então vá logo para sua casa, peça explicações e me diga isso com urgência — disse Das Dores, pegando nas duas mãos de Eloá e olhando em seus olhos — faça isso com urgência, pode ser caso de vida ou morte.

— Credo! Não exagere, Das Dores. Não se preocupe, direi tudo a você — disse Eloá, levantando-se assustada com os exageros de Das Dores e caminhando em direção a porta da sala.

Antes que Eloá colocasse o pé para fora da casa, sentiu um pequeno puxão no braço direito.

— Ah, eu vou trabalhar agora, me ligue assim que tiver alguma notícia, estarei com o celular no bolso.

— Fique tranquila. Vá trabalhar sossegada. Prometo que ligo assim que souber de algo — respondeu Eloá no mesmo tom de voz.

Estava próximo das 10h quando Eloá deixou a casa de Das Dores, ambas precisavam chegar ao emprego às 13h. No caminho para casa, a cinco quarteirões da casa de Das Dores, Eloá pensava sobre o que tinha ouvido da sua amiga: “pode ser caso de vida ou morte”. A lembrança da última fala de Das Dores fez surgir na mente de Eloá uma grande dúvida: “será que Clarisse realmente me conta tudo, ou ela, juntamente com Maria Eduarda, está escondendo algo?”

No caminho para casa Eloá vinha se lembrando das peripécias de Clarisse: entre os quatorze e dezesseis anos era bastante atrevida, respondona, e já havia saído escondida de casa três vezes para ir as festas com as amigas. Eloá, às vezes, a chamava de “menina do espírito ruim”.  Mas agora, aos 17 anos, havia mudado — pelo menos era o que a mãe queria acreditar.

Eloá caminhava a passos acelerados, estava ofegante, a máscara em seu rosto piorava ainda mais as coisas. Em sua mente veio o pior: pensou que sua filha tivesse nesse meio também, marcado algo com alguém, ou que alguém a raptasse, ou tivesse invadido a sua casa e feito coisas asquerosa com Clarisse. Cada passada rápida parecia alongar a chegada em sua casa.

Não quis esperar, ainda tinha que caminhar um bom pedaço, isso poderia ser fatal para uma menina, sozinha, desprotegida. Meteu a mão no bolso da calça e pegou o celular. “Vou dizer que tranque a porta da frente, só abra quando eu chamar”, pensou. Apertou o botão de chamada e esperou…

— Droga! O telefone chama, chama e ninguém atende — disse com voz trémula.

Confere se realmente havia ligado para Clarisse. Sim, havia ligado para ela. Aperta o botão novamente e fica olhando para o display do celular, o nome “Filha” aparece e logo em baixo estava escrito: “Chamando”.

— Ah, meu Deus! Por que que essa menina não atende — disse em voz alta, de modo a chamar a atenção de alguns transeuntes que passavam por perto dela.

Agora Eloá começa a correr, retira a máscara do rosto para melhor respirar, já não ligava se iria ou não ser multada por retirar a máscara em via pública. Faltavam apenas dois quarteiros para chegar em sua casa — para ela, naquele momento, ainda estava muito distante. Mesmo correndo ela tenta ligar, está a um quarteirão da casa, novamente o telefone chama, chama e ninguém atende.

Cruza a esquina da rua onde mora e já avista a sua casa, estava a uns cento e cinquenta metros. A essa distância ela viu o pequeno portão de ferro, estava escancarado. Seu coração parecia sair pela boca, sentia a pulsação intensa em suas têmporas, a respiração estava tensa e curta. Passa por Clotilde, a sua vizinha, e nem fala com ela, entra às pressas, empurrando a porta e dá de cara com o celular de Clarisse sob a mesinha de centro; se apavora, ajoelha-se e grita…

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