Abro este texto com uma frase atribuída a Mohandas K. Gandhi, mais conhecido como Mahatma Gandhi: “Qualquer coisa que você faça será insignificante, mas é muito importante que você o faça. Pois ninguém o fará por você”.

Esta frase é uma das propulsoras das minhas ações como professor. Se pensarmos o “insignificante” (aquilo que vem em dose homeopática e de efeito em logo prazo — as inúmeras etapas do processo de ensino e aprendizagem, por exemplo) como algo útil e necessário, sendo este uma parte importante de algo maior (a sociedade, o planeta por exemplo), ela deixa de ser insignificante.

Desta forma, penso que se eu não fizer algo — ainda que minguado — por esta coisa maior, “ninguém o fará”. A minha atitude frente ao ensino (ou a aquilo que pretendo transformar) é algo particular, algo como a minha digital.

Todos os dias na labuta deparo-me com pessoas que têm o futuro maior do que o passado, trazem consigo um mundo de possibilidades — é claro que uma parte carrega um certo futuro não tanto promissor, haja vista n fatores que não caberão, no momento, discerni-los aqui. Contudo, parte considerável nem se quer sabe da importância de frequentar a escola de maneira mais ativa, consciente.

Muitos alunos associam sua passagem pela instituição como um meio de obter o “papel” (o diploma) para facilitar a entrada em um emprego; outros sonham com metas em longo prazo e se veem como formados num futuro promissor, embora não estejam agindo nas metas a curto prazo, ou seja, não dão crédito aos estudos diários; outros, ainda, não levam em conta nada disso, apenas, e talvez, desejam estar dentro da escola — por várias razões particulares — e não propriamente dentro de uma sala de aula ou em atividades pedagógicas.

Certa vez uma aluna disse-me, diante de uma sala de aula quase vazia — seus colegas estavam gazeando a aula para assistir aos jogos escolares (JERNs): “Eu venho para a escola para ver gente”.

Constato quase sempre, em reuniões e conversas entre colegas da profissão, os reclames quanto a contínua descrença dos alunos aos estudos. Uma das queixas mais pertinente atualmente é o uso do celular em sala de aula, a problemática é contumaz e perniciosa — recente pesquisa mostrou que o uso excessivo do celular em sala de aula prejudica o rendimento do estudante.

Não vou aqui colocar a culpa somente nos alunos por perceber o pouco interesse deles pelos estudos. A coisa é mais complexa. Um exemplo disso encontra-se na literatura especializada na qual coloca em xeque a metodologia pela qual o professor utiliza para ministrar as aulas, algo como sujeito (o aluno) e objetos de estudos (os conteúdos) separados.

As obras relatam que esta forma metodológica (tradicional) não é mais eficaz para nossa época. José Carlos Libâneo, no livro Didática (2013), afirma que no ensino deve haver “transmissão e assimilação ativa de conhecimentos e habilidades”.

Assim sendo, ratifica o autor, “o ensino é uma sequência de atividades do professor e dos alunos, tendo em vista a assimilação de conhecimentos e desenvolvimento de habilidades, por meio dos quais os alunos aprimoram capacidades cognitivas (pensamento independente, observação, análise-síntese e outras)”.

Para Edgar Morin, no livro A cabeça bem-feita, “a educação deve favorecer a aptidão natural da mente para colocar e resolver os problemas e, correlativamente, estimular o pleno emprego da inteligência geral”. Segundo o autor, “uma cabeça bem-feita é uma cabeça apta a organizar os conhecimentos e, com isso, evitar sua acumulação estéril”.

Diante do novo século que se aproximava, em 1998, a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) apresentou um relatório (coordenado por Jacques Delors) onde dizia que a Educação para o Século XXI deve estar apoiada em quatro pilares: aprender a ser, a fazer, a viver junto, e a conhecer.

Nesta nova concepção o espaço escolar deveria proporcionar experiências das quais não se realizariam em contexto familiar.

Então você, caro leitor ou cara leitora, poderia inquerir assim: Se desde 1998 já se falava nisso, já se planejava ações para a educação, como é possível atualmente estarmos diante dos mesmos problemas?

Bem… ao proporcionar novas estratégia de ensino não significa dizer que ocorrerá mudanças profundas em curto espaço de tempo, embora já se passaram mais de 25 anos.

Quando se discute novas abordagens metodológicas para o processo de ensino-aprendizagem há de se considerar os prazos: os curtos — nos quais alguns efeitos são sutis, e estão solvidos nas várias etapas do processo; e os longos, de efeito palpável — nos quais são a somatória de todas as demais etapas ao longo de um certo parâmetro do processo.

Além do mais, há vários fatores que contribuem para lentidão das mudanças: o reconhecimento social da profissão de professor; as condições de trabalho (apoio pedagógico, equipamentos e materiais didáticos) e a sua formação (currículo universitário desatualizado) — “a formação de professor precisa de ser repensada e reestruturada como um todo, abrangendo as dimensões da formação inicial e da formação contínua” (NÓVOA, 1999).

Cito exemplo, boa parte do professorado necessita aprimorar-se quanto ao uso das tecnologias digitais, é o que mostra a UFMG e CNTE em um levantamento ocorrido em 2020.

Entremete, o professor, na medida em que ministra a sua aula, é forçado a lidar com algo no qual não foi preparado, ter a capacidade de evidenciar sua matéria de modo a chamar mais atenção do que o que se apresenta nas telas dos celulares dos seus alunos.

Utilizada na escola como um meio pedagógico a tecnologia tem papel fundamental no aprimoramento didático das aulas, além de oferecer diferentes possibilidades como o uso de dispositivos como computadores, tablets, aplicativos educativos e recursos audiovisuais, entre tantas outras.

Todavia, convém ter ciência de que ela também possibilita o surgimento de novas problemáticas. Segundo Valdemir Miotello — no prefácio do livro Ciência, tecnologia e sociedade — “todo o processo educativo hoje, em todos os níveis, está calcado em competentes abordagens de cunho tecnológico, deixando de lado as questões acumuladas e pouco refletidas emanadas do desenvolvimento desenfreado das últimas décadas”.

Bem, seja lá como for — a tecnologia, as preferências dos discentes na era da informação, a forma didática do professor, além das complexidades do viver em sociedade — a escola deve sim rever seu papel, os documentos oficiais da educação estão aí para nortearem os avanços.

Não é mais possível abarcar as demandas contemporâneas com metodologias desatualizadas. Ainda que seguindo as normas formais (todas as atividades devem estar pedagogicamente atreladas ao processo de ensino-aprendizagem), estar na escola tem sentido maior do que prestar concurso para o ENEM, ou para entrar em um emprego ou mesmo jogar conversa fora.