Alguns causos em minha vida sempre trouxeram desconfortos, uns são mais intensos do que outros. Mesmo que certos acontecimentos não foram diretamente comigo, mas com pessoas próximas. Quando aparecem assim, de supetão, me deixam sem palavras. Porém, todos eles trazem aprendizados.
Contarei aqui três causos, somente no primeiro terei a participação de uma amiga — seu relato está entre aspas.
Bem, então vamos lá…
Causo 1
Entro no supermercado, acompanhado de uma amiga (vamos chamá-la de Margarida), e me direciono ao setor das massas… Ah! Não vou começar por aí, tem algo antes. Por exemplo, no relato de Margarida tudo começou quando ela (e eu) foi a um mercadinho da cidade em busca de algo para se alimentar; segundo ela, estava com uma fome incontrolável. Acompanhe o seu relato:
“Ao adentrar no estabelecimento senti um clima um tanto ‘pesado’ logo na entrada onde fica um operador de caixa de supermercado. Uma senhora, que pela idade um pouco avançada, provavelmente uma parente do dono do comércio, pois dificilmente nessa região contrata-se pessoas idosas, o que entendo não ser nada correto não oferecer oportunidades a pessoas dessa faixa etária, demonstrava expressão raivosa e nada receptiva, é tanto que a cumprimentamos e esta nada respondeu. Isso já nos gera de início uma sensação desagradável”.
O bom deste primeiro destaque é que já temos uma noção do que poderia nos esperar naquele estabelecimento. Então, como havia dito, me direciono, junto com Margarida, ao setor das massas e peço um bolo apontando para um ponto específico da vitrine, onde estava o bolo que interessava a gente. No entanto, e como explica a amiga, “nos decepcionamos depois, pois detinha mais massa crua do que qualquer sabor”.
Do outro lado da vitrine uma moça, após ouvir minha solicitação, agacha-se um pouco e aponta para um outro bolo que estava próximo do qual eu havia solicitado:
— Este?
— Não. — Respondi, e acrescentei em seguida — O outro.
A moça pega o bolo fofo e na mesma hora pergunto.
— De que é?
— É de fofo. — respondeu de maneira seca, não como deboche, mas como quem diz assim: que pergunta besta.
Na descrição de Margarida — quando fiz a pergunta sobre que tipo era o bolo — ela percebeu outras nuances da atitude da funcionária, pois “a moça imediatamente levantou a sobrancelha, entortando a boca como quem ridicularizou a pergunta, onde em seguida respondeu aumentando o tom de voz e soletrando com ar de deboche: ‘DE FO-FO!’. Ele mais uma vez tentou até explicar sua pergunta dizendo: ‘não! Quero saber de que é!’ Ela outra vez, e nada acolhedora, totalmente desprovida de empatia respondeu de forma ríspida: ‘DE FO-FO!’”
Pois bem, olhei para ela, e a minha amiga também — esta, pela força da educação, segurou uma boa resposta.
— Não…, eu sei, mas é que se este bolo tem…
Faltou-me até o nome da coisa que continha no bolo fofo. Margarida deu um empurrãozinho no meu cérebro, foi onde me lembrei.
— … se é de baunilha, chocolate…
Nas palavras dela você já imagina como ocorreu este fato:
“Meu colega já sem jeito e talvez constrangido pela situação poupou as palavras, foi quando direcionei meu olhar fervoroso dominado pela ira, mas com a doçura da minha voz tentando controlar meus instintos selvagens em responder aquela jovem talvez insatisfeita com seu trabalho, ou com problemas no relacionamento, quem sabe com salário atrasado, ou sabe-se lá o que, a respondi: Ele quis dizer se é de laranja, de chocolate… DE FO-FO ele sabe que é!”
A funcionária ficou calada por uns instantes, e fez cara de quem não sabia.
Contudo, para Margarida, a funcionária sabia sim; é tanto que ela relata a situação constrangedora: “ainda com olhar irônico, mas diminuindo o tom da voz a jovem disse: De fofo! Sabor normal! Sabor normal! (Risos por aqui) Normal ela não era!
Questiono-me: ‘o que vem a ser o sabor normal’ do mal atendimento prestado pela aquela funcionária? Nada acolhedora e desprovida de empatia. Na certa por motivos assim alguns gestores não desenvolvem seus empreendimentos, pois não buscam pessoas qualificadas para suas empresas.
O fato é que precisamos a todo momento manter o controle na medida em que estamos arrodeados de pessoas amarguradas, estranhamente desprovidas do mínimo de respeito pelo outro”.
Levamos o bolo fofo que não sabia de que era, mas levamos. Bom… a história do bolo teve continuidade, mas ficou somente entre mim e a amiga. Mas vou só contar uma coisinha: o bolo que não sabíamos de que era não tinha sabor, ou seja, ainda não sabemos até hoje. Este fato ainda rende conversas e lembranças.
Causo 2
Em um tempo mais atrás, ao visitar um evento sobre as diversas culturas orientais, entre elas a hindu e a budista, ao apreciar um suvenir, no qual simbolizava o Om (ver imagem abaixo) uma pessoa que estava próximo de mim pegou o objeto, levantou-o na altura dos olhos, e perguntou ao vendedor:

— O que é isso?
— Este é um símbolo budista — disse o vendedor, de maneira seca e sem olhar para o visitante.
— Mas o que significa? — perguntou o visitante.
O vendedor parecia que estava “naqueles dias”, onde ficar em casa era a melhor coisa a fazer. Olhou, soberbamente, para o visitante meio que emburrado.
— É um símbolo que representa os trinta anos do budismo.
Na verdade, o símbolo, que em algumas representações têm aparência com o número trinta, nada tem a ver com a idade do budismo, e não é um número. O budismo teve origem por volta do século VI antes da era cristã, e não se sabe se houve ou não comemoração dos trinta anos. O símbolo significa o “Om” ou “Aum”, som sagrado que, segundo a cultura oriental, é o som do universo.
Tudo bem que algumas pessoas confundam o significado do objeto, mas o vendedor, no qual estava a caráter, teria obrigação de saber e repassar as informações necessárias para o provável comprador. Entretanto, o vendedor preferiu assumir a postura antipática e desonesta.
Causo 3
Era meado de dezembro, em Natal, eu estava à procura de um presente para o amigo secreto, confraternização — sorteio entre amigos para escolher às cegas quem irá presentear. A turma optou por fazer dessa comemoração algo mais irreverente. A regra era que o presente deveria ter um valor máximo de um real e noventa e nove centavos (R$ 1,99).
Então, como sempre, sigo as regras. Todo o caso, e mais outros, cito aqui nesta postagem.
Após fazer um tour pela loja, encontrei o que queria: um singelo porta lápis no preço desejado. Decidi levar. Antes de chegar ao caixa percebi que havia alguns cartazes fixados na parede do estabelecimento com a seguinte informação: “Embalamos para presentes, por favor, procure nossos funcionários”.
Após ler aquela frase fui direto à procura de alguém da loja que me atendesse. Encontro uma funcionária. Solicito a ela para embalar o produto para presente. A moça, com um olhar meio que caçoado, disse:
— Nós não embalamos presente de “um e noventa e nove”.
— No cartaz não diz isso — retruquei.
A moça olhou para mim outra vez, agora com um ar de quem diz “E daí!”, e respondeu novamente que a loja não embalava presente com preço de um e noventa e nove. Após pronunciar as palavras meio que por deboche, dar as costas e vai embora atender a outro cliente.
Eu, bufando de ódio, sai ‘feliz da vida’ para pagar o objeto. Ao chegar ao caixa coloco o presente, ainda sem estar embalado, sobe a mesa do caixa e entrego uma nota de dois reais para um senhor. Este faz o registro da venda e entrega um papel oficializando todo o tramete legal da venda. Recebo o produto em um saco plástico, sem estar embalado para presente, e fico esperando o troco. O rapaz, ao me ver parado e escorado na mesa do caixa, de maneira educada pergunta:
— O senhor deseja mais alguma coisa?
— Sim. Meu um centavo que está com você.
— O senhor quer um centavo?
— Claro! O produto tem preço de um real e noventa e nove centavos, e eu dei dois reais.
— Desculpe, senhor, mas eu não tenho aqui um centavo para lhe dar. O senhor pode devolver o produto, se quiser.
Pensei em perguntar se ele conhecia o direito do consumidor, especificamente o artigo 39, incisos I e II do Código de Defesa do Consumidor. Mas preferi manter a paz espiritual.
— Não! Vou levar o produto. Veja aí com os outros caixas, possa ser que eles tenham.
Então, o rapaz do caixa perguntou aos seus colegas. Todos disseram que não tinham.
Foi aí que me veio uma ideia com sabor de vingança, é claro que minha vingança tinha como alvo a loja, embora quisesse mostrar a funcionária de que ela iria embalar meu presente.
De relance a vi, estava a duas secções diante de mim. Pedi ao caixa para solicitar a ela para que embalasse o objeto como dispensa do centavo. Assim ele fez. Quando ela percebeu que o presente era o que ela havia rejeitado embalar foi logo fechando a cara. Calada estava, calada ficou. Embalou o presente com tanta raiva que o primeiro pedaço de papel que ela puxou rasgou; voltou a puxar outro pedaço, desta feita, mais devagar.
Em minha mente pensava assim: “Olha só! Se tivesse embalado o presente no primeiro pedido meu, ou se tivesse o um centavo talvez fosse mais barato para a loja, e menos traumático para a funcionária. Esta teria sido menos prepotente e não estaria remoendo a mesma raiva que aspergiu”.
Pois bem… é fato que nem todos os dias estamos alegres, satisfeitos conosco ou com o mundo, mas uma atitude gentil, em certas ocasiões, evita muitos transtornos.

A arrogância é algo horrível, infelizmente é algo que está sendo normalizado por alguns… Óbvio que temos os nossos dias de “trevas” (dia ruim). Lembro de um relato de um pastor de uma igreja. Ele relata que em um certo dia ele estava em cafeteria no aeroporto, uma garçonete tratou ele justamente como o seu primeiro causo. Aquele tom de ironia, deboche e etc. O interessante é que ele se coloca no lugar dela, conversa com ela e argumenta que aquilo é errado. Ela relata que estava passando por diversas coisas ruins e etc…
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Olá Luydson, agradeço a suas observações, sempre contribuindo com as discussões. Abraços
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