A cada mês visito as bancas de revistas da cidade para ver se a edição da revista Piauí chegou, em Mossoró a Piauí chega depois do dia dez. Sei que é possível ver (e até obter por assinatura) a edição mensal pela internet — é fácil, basta “dá um Google” que o site da revista aparece —, é possível instalar o aplicativo da revista pelo Play Store e saber das notícias do mês; recentemente, entrei num grupo do WhatsApp que posta todos os dias os PDF de revistas e jornais, inclusive a Piauí.
Entretanto ainda prefiro o modo antigo, porque costumo peregrinar por outros ambientes antes de chegar ao local de destino — é quase um ritual: primeiramente visito os sebos, em seguida uma livraria, e só depois é que vou até as bancas de revistas. Sábado retrasado não foi diferente.
Ao chegar à Banca Zé Maria (José Maria de Abreu, o “Zé Maria da Banca da Revista”, já falecido — ulteriormente sua filha, Ceição, é quem assume a tarefa de mantê-la funcionando), uma das mais antiga da cidade, desde 1975, situada na Tv. Martins de Vasconcelos, Centro, de fronte a praça Vigário Antônio Joaquim — ao chegar a primeira banca, e após passar os olhos nas novidades do mês, faço a velha pergunta: “A piauí chegou?”.
De pronto a dona Ceição, ao virar-se para um dos lados e conferir num pegador de madeira, solitário, pendurado em uma cordinha fixada em uma das portas da banca, disse:

— Não. Ainda não chegou. Não sei o porquê que ela está demorando tanto. Ultimamente ela tem atrasado bastante.
Agradeci a presteza e, sem demora, fui em busca da próxima. No trajeto até o outro quarteirão surgiram algumas lembranças de uma antiga banca de revista da cidade (a maior, entre as demais), a Casa da Revista (fundada em 1971), na rua Santos Dumont, Centro, — local onde era possível encontrar os mais variados tipos de jornais, revistas e até livros.
Era no período da tarde, semanalmente, quase sempre às sextas, que a visitava. Logo na entrada era possível notar as revistas em destaque, a vitrina de vidro reluzida pelo Sol atraia os olhos dos consumidores de novidades — lembrava-me a música Alegria, Alegria de Caetano (década de 60): “O Sol nas bancas de revistas, me enche de alegria e preguiça”, a música, marco inicial do movimento Tropicalismo, se referia a cultura de massa da época, também denunciava o abuso de poder. Minhas preferências, naquela época, finais dos anos oitenta, era por revistas em quadrinhos, caça palavras, Superinteressante, Ciência Hoje e até as revistas que traziam algo sobre qualidade de vida.
Dentro da loja os frequentadores se espalhavam pelo salão, cada qual em seu setor — separados por mesas baixas, redondas e elípticas, na cor mogno, com prateleiras de madeira fixadas nas paredes.
Não era permitido folhear as revistas, quem o fizesse levava bronca do funcionário e até do dono do estabelecimento. Alguns não se importavam com as broncas, faziam ouvidos moucos. Com o tempo, e de tanto reclamar, o dono do estabelecimento passou a empacotar as revistas em sacolas plásticas transparentes. Assim ficou… até que um dia, como tudo tem o seu tempo, a Casa da Revista fechou. E hoje só resta saudade.
Ao chegar a outra banca, Banca do Ademar — situada a rua Idalino de Oliveira, no Centro, a qual também tem uma certa tradição no comércio da cidade (40 anos de serviços prestados) — fui imediatamente atendido pela senhora Fátima, esposa de seu Ademar, que me recebeu oferendo alguns goles de chá mate gelado. De pronto aceitei.

O chá estava ótimo, em cada gole uma sensação — o aroma e o sabor me convidavam para repetir o processo; declinei o desejo, fui controlado pela civilização.
A Banca do Ademar tem público cativo, entre os quais estavam presentes os vidrados em álbum de figurinhas. Neste dia havia um pai, com seu filho ao lado, a procura da tal revista, havia também pessoas adultas trocando figuras repetidas com os demais que se afinavam com aquele elã.
— A piauí chegou? — falei em tom amistoso, a receptividade com o chá da tarde acalmou-me, o dia tinha sido todo de alvoroço.
— Sim, chegou… Até que enfim… Outros já perguntaram por ela — respondeu Fátima.
— Por favor, gostaria de conferir as notícias da edição do mês.
— Sim, claro… Veja aí. — disse ao retirar a revista, a qual estava pendurada por um pegador metálico fixado na porta, e entregá-la a mim.
Com calma, passei os olhas na capa, folheei algumas páginas e decidi levar. Antes de sair perguntei se havia alguma revista sobre cifras de violão. Desta vez foi o seu Ademar quem me respondeu.
— Não. Não está mais vindo. As pessoas agora só querem saber de vídeos no Youtube. Não estão mais lendo nada. A internet está acabando com tudo, ela vai ser o fim de tudo — disse franzindo as sobrancelhas.
Não sei se a coisa é assim tão catastrófica, há o outro lado disso tudo. Mas, de certa forma, ele tem lá suas razões. A chegada da era da internet tem gerado desconforto nas lojas físicas de produtos de leituras como as livrarias, os sebos e as bancas de revistas.
A cultura de publicações impressas deixou de ser algo popularizado para se converter em um mercado de nicho. Contudo, para a sorte dos que frequentam estes ambientes, ainda persistem poucos estabelecimentos com atividade fim de comércio varejista de jornais e revistas na cidade, a despeito da modernidade minar a existência delas.
Ah, cá entre nós: sabe aquela conversa que tive com a dona Ceição e a dona Fátima sobre o atraso da revista piauí?
Pois é… acho que a empresa ouviu; porquanto, ao passar num dia inusual (isto numa quinta-feira, deste mês, dia 8) pela Banca do Ademar a dita estava lá, pendurada em seu cantinho de sempre.

