VER PARTE I – POSTAGEM ANTERIOR.

(…) Das Dores bate à porta do quarto de Maria Eduarda, diz que vai ao trabalho, a chama para fechar a porta da frente. Segundos depois, Maria Eduarda abre a porta do quarto, olha para a mãe e a abraça. A mãe retribui o abraço e deseja juízo a filha. Maria Eduarda a acompanha até a porta, e ao ver a mãe descer os dois degraus do batente disse — Terei sim, mãe —. Antes mesmo da filha fechar a porta, Das Dores se vira e, entre troca de olhares, disse: — Espero que sim, filha…espero que sim! Do outro lado da praça, encoberta por uma parede na qual divide uma quadra de handebol e futsal, está a parada de ônibus na qual Das Dores espera o transporte para ir ao trabalho. Sai apressada, faltavam menos de cinco minutos para o ônibus chegar. Em passadas rápidas e com a mente agitada sentia sensações estranhas, imaginava que aquele olhar da filha ao abrir a porta do quarto, ao abraçá-la e ao respondê-la, “Terei sim”, dizia algo além dos gestos e da fala.

Após voltar ao quarto, Maria Eduarda sentia um certo peso na consciência, estava a enganar a mãe; uma espécie de curiosidade e um sentimento de paixão, adornada de culpa, a impelia maquinar o próximo passo. No entanto aquilo tudo era muito grande, a paixão e o pecado da mentira, para ficar somente com ela: desejou encaminhar a amiga, Clarice, a mensagem recebida de Carlos Miguel, seu namorado, mas manteve a segunda mensagem em segredo.

Os gritos de Eloá ressoaram pela casa adentro e extravasaram para o lado de fora. Clotilde, que regava as plantas, soltou, no mais que de repente, o regador, e correu em seu socorro. Embora a casa dela fosse separada por duas outras casas, Clotilde, de setenta anos, corria lenta e manca, tinha dores fortes nos joelhos por problemas nas articulações. Assim que ela chega à porta da casa de Eloá a encontra segurando o celular da filha — Eloá tinha acesso à senha da filha — tinha visto a mensagem do encontro, mas não notou, de tão preocupada que estava, que a mensagem tinha vindo de Maria Eduarda. Clotilde, ao entrar na casa percebeu de imediato que o problema era com Clarice e foi logo perguntando:

— O que houve, Eloá?

— É Clarice, é Clarice… Clarice, dona Clotilde — disse tremendo e virando-se para Clotilde. — Ela fugiu com alguém.

— É impossível, Eloá, ela acabou de sair daqui e deixou um recado para você dizendo que iria a casa da sua irmã pegar o carregador do celular — disse Clotilde de maneira enfática, tentando aliviar a angústia de Eloá.

— Pois não foi, não foi, dona Clotilde. Até o celular ela deixou para que ninguém ligasse ou a seguisse. Veja a mensagem do celular, veja…

Eloá havia esquecido de que Clotilde não sabia ler.

— Me desculpe, Eloá, eu não sei ler.

— Então vou tentar ler para a senhora: “Meu amor, como combinado, nosso encontro será as 16h de hoje, venha só” — Eloá termina a leitura da mensagem com voz embargada.

O nervosismo de Eloá tomou de conta de Clotilde, esta já não acreditava no recado de Clarice deixado para a mãe. As duas não se deram conta de que bastava ligar para a Eleonora, irmão de Eloá, para confirmar se Clarice estava lá ou não.

Depois de uns vinte minutos de agonia, onde ambas abraçadas choravam, entrou na casa de Eloá Susana, a vizinha da frente, uma senhora culta de uns quarenta e oito anos. Ela chegou às pressas, entrou sem nem pedir permissão e já foi logo perguntando o que tinha ocorrido. Eloá, aos prantos, contou o caso e foi logo mostrando a mensagem no celular.

— Não, Eloá! Você não entendeu a mensagem. Olha só, preste a atenção aqui, a mensagem veio de outra pessoa. Foi encaminhada para sua filha. A pessoa que mandou para ela é uma tal Maria Eduarda — disse de maneira enfática.

De imediato Eloá pegou o celular da mão de Susana, leu com maior atenção a mensagem, e percebeu que tinha cometido um erro de interpretação. Pensou: “embora ela fosse tão danada, teimosa, agora tenho a certeza de que ela não seria capaz de cometer certas loucuras”. Na medida em que reformulava sua opinião sobre a filha, as linhas do seu rosto distensionavam, e um sorriso de satisfação tomou conta do seu rosto. Enxuga as lágrimas, abraça as duas amigas e logo em seguida liga para a irmã a fim de saber se Clarisse havia chegado lá. Sua irmã confirma que sim. Depois de alguns minutos de conversa entre as três amigas, Susana e Clotilde voltam para as suas casas. Eloá, ainda sentindo a sensação de alívio, olhou para o relógio fixado na parede da sala, percebeu que já passava das trezes horas e trinta minutos, estava atrasada.

Das Dores seguia no trajeto para o trabalho, dentro do coletivo, tensa, esperava o contato de Eloá — ela não tinha crédito e nem dados móveis. Remoía em sua cabeça os últimos momentos da conversa com a amiga, lembrou também do olhar esquisito da filha escorada na porta da sala esperando-a sair para o trabalho. De repente escapuliu um pensamento sussurrado: “O que está havendo com Eloá por ainda não ter ligado para mim?”. Duas moças que estavam sentadas na poltrona, bem próxima a dela, olharam-na de soslaio. O coletivo chega a sua parada final, Das Dores salta do ônibus e vai até o outro lado da rua, desce as escadas e corre em direção ao ponto do metrô, faltavam três minutos para que o metrô chegasse. Das Dores aproveitou o tempinho para tentar alguma conexão, havia ali linha aberta de acesso à internet. Tentou duas vezes ligar via WhatsApp, mas a linha aberta não estava com boa conexão. Neste momento o metrô chega no ponto de embarque, aporta abre e ela entra. Sentada, pensou: “agora, conexão, só na casa do patrão”. O metrô segue, enquanto a cabeça de Das Dores remoía de incertezas e agonia.

Eloá segue para o trabalho — já não se importava em chegar atrasada, a Unidade de Pronto Atendimento na qual ela trabalha fica a oito quarteirões da sua casa — a alegria banhava a sua mente, a cada passada ela pensava em Clarice, sentia-se feliz, sua filha não mentiu; algumas vezes vinha a sua mente pitadas de remorsos por ter desconfiada da filha nesta e em outras ocasiões — pedia perdão a Deus, e jurava que iria à missa no fim desta semana para agradecer e rezar para a filha.

O metrô fez uma parada de emergência de dez minutos, havia trilhos danificados, a empresa que opera aquela linha teve que alterar a rota e fazer o veículo retornar oito quilômetros para pegar a próxima via férrea, com isso ele chegaria no destino onde Das Dores desceria com quarenta minutos de atraso. O nervosismo tomava de conta de Das Dores — sem conexão, e agora atrasaria sua chegada a casa do patrão uns quarenta minutos.

— A senhora está se sentindo bem? — perguntou um rapaz sentado em outro banco. Estava vestido com uma bata de seminarista, utilizava uma máscara cirúrgica de cor vermelha na qual estava escrito: “Posso ajudar?”. Ele notara a impaciência de Das Dores.

— Estou sim, obrigada. Só estou querendo falar com uma amiga, algo importante, pelo WhatsApp, mas não tenho como, pois não tenho internet.

— Eu posso compartilhar minha conexão com a senhora, caso queira.

— Eu fico muito agradecida, moço, mas não sei mexer nisso. Você poderia colocar a internet aqui, no meu celular, e eu mando uma mensagem para minha amiga. Pode ser?

— Sim, claro, deixa me ver aqui…

O rapaz compartilhou seus dados móveis e ela ligou para Eloá. Fez duas tentativas, mas não conseguiu contato. Deixou um áudio.

— Pronto moço, obrigada. Você me ajudou bastante. — disse Das Dores, com a voz ainda embargada.

— Tem certeza de que resolveu o problema? — disse o moço, percebendo o desconforto de Das Dores.

— Não foi resolvido, mas deixei a mensagem para retorno. Pelo menos tentei o contato, obrigada mais uma vez.

— Enquanto eu estiver no metrô a senhora terá acesso a minha internet. Desço somente na quinta parada. — disse o moço satisfeito por estar ajudando.

Bastou aquelas palavras do rapaz para que Das Dores sentisse um pouco de sossego. Sabia que estava conectada e já havia passado a informação para a amiga.

— Tá certo, é muita gentileza da sua parte.

No hospital, Eloá vai direito ao setor de vestuário para colocar a farda de trabalho, abre seu armário e pega o jaleco. Coloca sua bolsa dentro do armário enquanto troca de roupa. Fecha o armário e vai marcar o ponto da hora de chegada no relógio de ponto. Em seguida, vai ao almoxarifado e pega o material de trabalho, caminha para o seu setor onde fará a limpeza. Encontra as suas amigas, Marlúcia e Geneide, que estavam desinfectando uma das salas de cirurgia; Eloá entra no setor com um pano e um frasco de álcool para passar nas camas. Na medida em que elas faziam a tarefa, Eloá aproveita para contar o ocorrido, nesse momento ela lembra que deixou o celular dentro do armário.

— Valha meu Deus! Esqueci o celular no armário, será que Clarice ligou?

Eloá deixa as amigas na limpeza e corre para o setor do vestuário. De posso do celular ela ver que Das Dores entrou em contato. Aflita, coloca a mão na testa e diz:

— Nossa! Essa minha agonia me fez esquecer de ligar para Das Dores.

Abre o WhatsApp, escuta os áudios da amiga, sente a voz da amiga tensa. Resolve, rapidamente, ligar para ela…

No metrô, o rapaz olhou para Das Dores e disse:

— Vou ficar aqui, a minha parada é a próxima. Não se preocupe, vai dar tudo certo.

— Vai sim — respondeu com um sorriso enovelado, seu semblante um pouco pesado tentava disfarçar o desconforto que sentia, ficaria sem acesso à internet novamente. Ainda faltavam três paradas para ela descer do metrô.

— “Por que que Das Dores não atende? A esta hora ela já deveria estar no trabalho” — pensou Eloá, após três tentativas pelo WhatsApp. Resolve fazer uma chamada telefônica, mas descobriu que estava sem crédito. — Droga!  Maria Eduarda está com encontro marcado para hoje e não tenho como comunicar isso para Das Dores. Vou esperar mais um pouco, talvez ela não tenha chegado ao trabalho, deve ter ocorrido algo — disse para si mesmo, em baixa voz.

Em casa, Maria Eduarda se prepara para o encontro: após o banho de vinte cinco minutos, abre a porta do guarda-roupa e pega as maquiagens, sua mãe havia comprado em uma promoção, um kit completo com estojo sombras e pincéis, embora soubesse que bastaria pouca produção para que sua beleza fosse realçada ainda mais. Em seguida, escolhe seu melhor look — blusa cropeed, calça cargo reta, estilosa, e um salto. Olha-se novamente no espelho oval onde todo o seu corpo ficava em evidência.

— Pronto! Estou quase linda — disse com um sorriso de satisfação.

O metrô chega no ponto de parada onde Das Dores descerá. A porta se abre e ela sai apressada, precisava caminhar uns vinte minutos. Estava atrasada, mas isso não era o problema, ela só queria chegar à casa dos patrões e ligar para Eloá. Finalmente chega à casa, de fronte ao portão painel, e embaixo da marquise do muro, faz o gesto de apertar a campainha, resolve não apertar. Ela sabia que da calçada já era possível conectar à internet do seu patrão. Pega o celular, percebe que havia cinco chamadas da sua amiga. Imediatamente Das Dores faz chamada de vídeo, as três primeiras tentativas foram agonizantes, mas na quarta chamada Eloá atende.

— Oi, Das Dores. Mulher, faz tempo que estou tentando ligar para você — disse, de modo apreensiva. — Confesso que havia esquecido de informar sobre aquela nossa conversa, você não sabe o que aconteceu, tenho motivo suficiente para pedir desculpas, mas depois conto os detalhes.

Das Dores notava que a amiga estava apreensiva.

— Fale logo, Eloá…fale logo!

— Vou direto ao assunto, depois a gente conversa melhor, viu? Maria Eduarda está de encontro marcado com um rapaz, será hoje às 16h.

Das Dores tremia o corpo inteiro ao receber aquela informação, ela quase desmaiou, teve que usar o muro como apoio para manter-se em pé, as pernas estavam bambas e as mãos tremulas, quase deixara o celular cair.

— Obrigada, amiga. Vou desligar e voltar para casa, tenho que conversar com ela, Maria Eduarda nunca foi disso… Eu percebi que tinha algo errado…eu percebi…Vou desligar, amiga… depois conversaremos.

Eloá viu que Das Dores estava transtornada, e antes que ela pudesse desligar, pediu que ligasse novamente quando chegasse em sua casa. Eloá estava disposta a ajudar a amiga.

— Ah, meu Deus! Meu Deus! O que foi que eu fiz para passar tanta dificuldade! — disse Das Dores, assim que deligou o celular.

Imediatamente ela faz chamada para Maria Eduarda, fez seis tentativas e nada dela atender. Sem demora Das Dores dá meia volta, decide não entrar na casa do patrão, resolve voltar para a parada do metrô, o próximo a passará às 13h50. Antes que ela pudesse sair da calçada o telefone toca, era a patroa; não atende e nem retorna à ligação, sai às pressas na certeza que ainda daria tempo pegar Maria Eduarda em casa.

Algumas horas depois, faltando uma hora para o encontro, Maria Eduarda pega o celular para conferir a segunda mensagem, percebe que havia várias ligações de sua mãe. Ficou receosa, teve dúvida se retornava, mas decidiu não ligar. Acessa a mensagem seguinte, do seu namorado, a segunda mensagem, na qual estavam o local e a regra do encontro: “Vamos nos encontrar por trás da igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Você deve vir sozinha, deixe o celular em sua casa e apague as nossas mensagens. Ninguém deve atrapalhar o nosso namoro, vamos estar as sois no banco da praça”. Assim ela fez, exceto apagar as mensagens, ela era daquelas que guardava todas as boas recordações. Eduarda não colocou o bloqueio de tela, contudo, todas as mensagens com áudio, vídeos e algumas fotos dele ficaram em uma pasta secreta (pasta trancada) com acesso somente por senha. O relógio na parede marcava exatos 15h quando ela tranca a gaveta e coloca a chave embaixo do colchão da cama. Deixa o quarto e sai para pegar o ônibus.

Das Dores, já dentro do ônibus, carregava em seu semblante o peso da culpa, os olhos lacrimejavam, molhava a máscara, tentava disfarçar a agonia. Desde que recebera de Eloá a notícia de que Maria Eduarda tramava algo sua mente não ficou mais em paz, todo o trajeto de retorno estava sendo penosamente desolador, como se o ônibus tivesse entrado na estrada do purgatório, onde o tempo era seu torturador.

Uma hora depois Maria Eduarda desce próximo a igreja, vai em direção ao ponto marcado. Segue pela frente, ela lembrava que havia passado, lembrou da estátua de uma mulher negra que amamentava o filho. O banco ficava por trás da igreja. Quis fazer surpresa, deu a volta e ficou por detrás de um banheiro público, de lá ela o avistou, ele olhava para o outro lado. Ficou surpresa quando o viu com celular. “Como assim ele estava usando celular? A regra era sem o aparelho. Por que só eu teria que não usar?”, pensou. Mesmo sentindo traída por quebra do acordo, ela suspirou forte, fingindo não saber do celular, e correu em sua direção gritando o seu nome.

Das Dores desce do ônibus e corre, corre o máximo que pode, eram 16h. Ela olha ao longe para ver algo, mas a parede da praça não a deixava ver o que estava a ocorrer em sua casa. Suada e respirando forte, retira a masca molhada do rosto e enrola no pulso, faltava alguns metros, a quadra, cercada, agora era a sua torturadora, não a deixa ver e ainda dificultava o trajeto, pois tinha que dar a volta. Ela chega de fronte a porta da sala, estava entre aberta, “Eduarda devia ter saído às pressas e não fechou a porta”, pensou cabisbaixa e com lágrimas a jorrar pelo rosto. A casa estava vazia, mas o coração de Das Dores estava cheio de remorsos, medo e raiva, ela clamava pela filha…aos gritos entra na casa e se ajoelha diante de um altar que ficava na sala, pede aos santos que ali estavam para amenizar sua dor e trazer a sua filha a salva para casa.

Ele levanta-se rapidamente quando escuta o seu nome, ligeiro e disfarçadamente coloca o celular no bolso e vira o olhar para trás, vê Maria Eduarda acenando; corre em sua direção e a abraça, pega em sua mão e a convida para entrar no carro cinza de vidros escuros estacionado a três metros dali. Vão em direção ao carro, ele abre a porta de trás e pede para ela entrar. Dentro do carro havia outra pessoa, Maria Eduarda se recusa entrar, mas ele, sorrindo a abraça, cochicha algo em seu ouvido e a convence entrar; fecha a porta.  Ele entra rapidamente no banco da frente, do passageiro, e o carro sai acelerando. Impossível ver o que estava a ocorrer dentro daquele veículo, mas era possível escutar uma batida de funk que vibrava a placa do carro, além de um som fino e abafado pelo barulho da música, parecia com gritos vindo de dentro do carro — nenhum transeunte percebeu tal grito — o que se ouvia era somente o barulho do motor, a música funk, que ficavam mais fracos na medida em que o carro se afastava da praça  e entrava na rua dos desconhecidos.