Quase sempre, ao sair de casa, meus sentidos ficam mais alerta. Olhos e ouvidos, agitados, parecem receber dose extra de adrenalina. Qualquer detalhe, por menor que seja, fica bastante perceptivo. Imagine, então, caro leitor ou cara leitora, sair de casa com essa sensibilidade e deparar com algo encorpado: o trágico e o cômico, por exemplo.
Pois bem, desta feita, estava em uma fila de banco, dentro da agência. Esperava para ser atendido por um dos funcionários, um pré-atendente (sentado à mesa de um computador, responsável por repassar as senhas de atendimento), que ficava antes da porta giratória. Nesta fila havia dez pessoas à minha frente.
Para não me estressar, com a lentidão do atendimento, usei a velha tática: abri o livro e comecei a ler. Não tinha nem terminado o primeiro parágrafo quando de repente ouvi uma voz com timbre bem elevado. Olhei para os lados e notei que a voz saía de outra fila.
Havia uma fila preferencial, bem próximo da qual eu estava. Um senhor muito ativo, parecia ter um pouco mais de setenta anos, falava pelos cotovelos, em alto e bom som, para todos ouvirem — estava lá para resolver algo relacionado ao PIS/PASEP.
A minha proximidade daquele vozeirão dificultava fazer qualquer tipo de leitura. Fechei o livro e dei preferência a escutar este senhor. Ao dar uma olhadela nas pessoas de ambas as filas notei que um pequeno grupo não gostava do timbre daquela voz; diferentemente de outros, nos quais se divertiam com a voz estridente e com as palavras que saiam sem se importar com a ordem lógica da fala.
— Sou rico. Estou aqui porque preciso resolver um problema no meu PASEP — disse com sorriso nos lábios, ao mesmo tempo em que olhava para os demais senhores e senhoras da sua fila. — Tenho vinte mil guardado no banco, e meu salário é de seis mil reais por mês. Todo mês venho pegar esse dinheirinho.
Uma senhora, de vestido estampado, olhar matreiro, que estava na fila preferencial soltou a dela:
— Hoje ele veio mais animado! Deve ter enricado mesmo.
Sem parecer ter escutado a fala da senhora do olhar matreiro, o suposto ricaço acrescentou em seguida:
— Tô feliz porque tenho dinheiro guardado no banco. Se eu quiser tiro tudo e vou gastar viajando, mas preciso pagar as contas — disse ele mais uma vez sorrindo e olhando para as duas senhoras que estavam a dar gargalhadas.
— Esse homem é doido! Dizendo isso alto assim, não tem medo de ser assaltado? — cochichou uma das mulheres atrás de mim.
— Ele não tem esse dinheiro não, é só cachorrada*— completou sorrindo um rapaz, ao ouvir o cochicho das mulheres.
— Gosto muito de estar aqui, ver todos vocês —, disse o suposto senhor rico ao olhar para outros idosos que estavam juntamente com ele na fila. — Rever vocês é sinal de que nenhum da gente morreu. Ainda tamos aqui — completou.
De forma brincalhona ele passava de uma fabulação para outra, todas cheias de auto engodo e blefes. Pensei: — tem mais contos do que Sherazade, a contadora de história da coleção As mil e uma noites (coleção de contos populares do Oriente Médio e parte da Ásia). O suposto homem rico só se calou quando foi atendido pelo funcionário do banco. Assim que recebeu as informações foi embora, mas antes de sair ele disse ao grupo de idosos:
— Espero que a gente se veja aqui no banco. Foi muito bom encontrar todos aqui.
Logo após a sua saída, uns dez minutos depois, fui o próximo a ser atendido pelo funcionário. Recebi a minha senha de atendimento e subi até o primeiro andar da agência.
Cheguei a uma sala ampla, de atendimento humanizado, onde havia poltronas macias (“sofás da paciência”) e computadores. Pouco barulho se ouvida na sala, as pessoas chegavam aos poucos. No entanto, já tinham algumas pessoas a espera para serem atendidas. Sentei-me num dos sofás da paciência. Pelo menos estava sentado.
Abri novamente o livro, iniciei a leitura. Contudo, em menos de três minutos, comecei a ouvir um som contínuo, parecia algo roçando em outro. Não ousei desviar a atenção do livro — embora sentisse o som intermitente a cutucar meus ouvidos —, mantive a leitura. Alguns minutos depois ouvi um sussurro: “Ah meu Deus!”. Levantei a cabeça e identifiquei a pessoa e o objeto roçador.
Era uma senhora alta, corpulenta, de pescoço encolhido. Estava impaciente, balançava as pernas em cima do sofá da paciência, olhava para os lados, baixava a cabeça, tornava a levantar e olhava para um dos funcionários do atendimento, um caixa solitário, embora os serviços de atendimento tivessem iniciado.
O incômodo desta senhora era porque havia quatro atendentes, mas um deles estava apenas sentado, acessava o computador, entretanto não chamava ninguém. Próximo dela havia um outro senhor, no qual também esperava para ser atendido. Ela olhou para ele, projetou a voz de modo que os demais presentes a escutassem, e perguntou:
— Por que aquele caixa não está atendendo as pessoas?
— Não sei — disse ele, balançando a cabeça negativamente. Reprovava a atitude do funcionário.
Ela ficou calada por alguns segundos, pensativa, e então completou:
— Esqueci de tomar o meu remédio para a ansiedade e vim para cá. Estou com medo de ficar tonta, preciso ser atendida logo. — E acrescentou com a voz altiva, mas tensa: —Vou falar com aquele caixa. — Levantou-se e foi.
Sentou-se na cadeira na qual estava de fronte ao caixa. Eu estava a uma certa distância do caixa solitário, mas notei que ele não havia gostado quando ela aprochegou sem ser chamada. A única coisa que ouvi, do encontro dos dois, de modo insisivo, foi a fala dele:
— A senhora tem que esperar o número do seu atendimento — disse ele olhando ainda para o computador.
Depois disso não tive mais como saber o que foi dito por ela ou por ele, o tom da voz de ambos mudou, e já havia mais barulho no recinto. Possivelmente ela tenha explicado o que sentia naquele momento. Só sei que ela se levantou do local, foi a uma sala diferenciada, demorou alguns minutos, e voltou a sentar-se no sofá da paciência, próximo do senhor que ela havia conversado. Calada estava, calada ficou. Uns cinco minutos depois ela foi chamada ao caixa. Foi atendida. Em seguida, sumiu pela escada abaixo…
Nota de rodapé:
* Aqui no Nordeste, “cachorrada” é uma expressão usada para se referir a um grupo de pessoas que está fazendo barulho ou farra. Também pode ser, dependendo da cidade na qual esteja, alguém que fala algo na brincadeira, ou mente de maneira folgazão.
