Recentemente estava fazendo compras em um dos supermercados da cidade — algumas vezes costumo prestar atenção nas ocupações das pessoas nestes recintos, sempre me vem à cabeça algo para escrever ao olhar toda aquela gente, cada qual com sua história de vida, ocupando-se das obrigações, vivendo ante a todas as dádivas e obstáculos que a vida oferece.
Mas desta vez minha mente se fixou em uma única pessoa de uns sessenta e pouco anos, encostada em um balcão do açougue. Esta senhora remexia de modo vigoroso pedaços de carnes de cor vermelha terracota — alguns estavam enfiados em certos objetos que pareciam armadores de rede pontiagudos — com olhos atentos e mãos ágeis ela conferia a textura, aproximava a carne da narina, colocava-a em outra posição, conferia a cor, por fim pegava outra e fazia o mesmo.
Ao prestar atenção naquela sofrida carne nas mãos daquela mulher me fez lembrar de outra carne sofrida, a de um carneiro negro. Não vou contar a história do animal, até porque, só participei de um micro momento dela.
Vamos ao causo…
Quando frequento a praia cearense, ali perto de Tibau, povoado de Icapuí, às vezes costumo comprar carne no Bar e Restaurante Mira Sol, em Peixe Gordo — distrito da cidade de Tabuleiro do Norte, no Ceará. Foi lá onde, num certo dia em que minha mãe desejava almoçar carneiro, deu-se o meu encontro com um carneiro negro.
Ele estava cabisbaixo, amarrado a uma árvore frondosa, deitado, aparentava introspectivo embaixo daquela bela sombra. Seu olhar parecia não enxergar nada além daquele espaço amplo no qual não encontrava nenhum da sua raça, estava solitário. Bem, não estava tão só assim, havia galinhas, cachorros e gatos livres que rondavam o recinto, entretanto não se aproximavam dele.
Ao chegar no local fui recebido pelo sr. Gilson, dono do estabelecimento. Expliquei minha preferência por um tipo de carne. Ele disse que não havia mais carneiro, o último já havia sido vendido, e apontou para o carneiro negro que estava amarrado.
Olhei novamente para o animal solitário, mantinha o semblante de antes — com uma pequena diferença na posição da cabeça: o carneiro agora olhava para o sr. Gilson, que apontava em sua direção.
— Vai ser abatido já, já — disse.
De repente, assim que o sr. Gilson pronunciou a sentença, pensei ter visto a cabeça do condenado erguesse num gesto de consciência, de quem prevê o seu futuro imediato não promissor. Não sei se foi algo instintivo do animal, ou porque éramos os únicos a conversar naquele momento, a uns doze metros do carneiro negro, mas percebi que o seu olhar centrava em nós.
— Venha mais tarde, teremos carne de bode — disse ele, deixando-me com esperança em levar outra carne.
Ali mesmo pensei: — “Posso até ser um dos responsáveis pela morte de um certo bode, mas daquele carneiro negro não serei o responsável.
Entrei no carro, contornei para ir embora, e ao passar ao lado do condenado, agora com velocidade reduzida, olhei de esguelha e tive a impressão de que o carneiro olhava para mim. Calafrio instantâneo tomou conta do meu corpo. Pisei no acelerador… Fui!
Por volta das 14h voltei ao restaurante do sr. Gilson. Ao entrar com o carro em um corredor estreito, que levava a uma ampla área, onde ficava o restaurante, minha mente trouxe de volta o carneiro negro, deitado e “pensativo”.
Uma pergunta surgiu em minha mente: — “Como ele estará agora, após algumas horas de introspecção?” E a resposta acompanhou, instantaneamente, a pergunta: — “Saberá em alguns segundos”.
Assim que saí do corredor deparei-me com ele, ainda amarrado na árvore frondosa, mas agora estava pendurado, de cabeça para baixo, morto e sangrando. Um recipiente aparava o líquido vermelho intenso; sangue vivo, como dizia minha avó.
Ao ver a cena me veio à mente a frase de Ernest Becker, autor do livro A negação da morte: “O inconsciente não conhece a morte”. Isto me deixou mais aliviado em saber que o carneiro negro não sofria com a aproximação da morte justamente por não ter a consciência dela. Os animais têm dificuldades em detectarem coisas negativas, embora pareçam perceber estranhamentos quando algo poderia provocá-los dor.
Penso que naquele primeiro momento, no qual o carneiro negro estava amarrado a árvore, cabisbaixo, solitário, com olhar conectado aquele ambiente, ele passava por algo disforme, causador do seu sofrimento. A despeito de não entender o porquê daquela agrura, apenas sentia o desconforto. Mal sabia que a coisa iria piorar, até que o sossego eterno chegasse.
