Uma vez, ao assistir a uma entrevista — da qual não me recordo nem o tema, nem quem o discutia —, ouvi uma pergunta que me chamou a atenção: por que quem age de forma correta é taxado de antiquado, enquanto quem vive a burlar as regras, ou a recorrer ao tal jeitinho brasileiro, é visto como esperto, até admirável?

Alguém é chamado de besta por devolver um troco errado; um trabalhador que cumpre suas obrigações vira “otário”; chegar no horário marcado passa a ser coisa de gente previsível, sem graça, tediosa, repetitiva.

Por aqui, também se acha normal “dar um jeitinho” para furar burocracias por meio de conhecidos; colar em prova ou copiar trabalho como se fosse habilidade; usar vaga de idoso ou de pessoa com deficiência “só um instante”; estacionar em local proibido com a desculpa de que é “rapidinho”; falsificar carteirinha para pagar meia ou omitir informações para levar vantagem.

Pequenas infrações que, repetidas e naturalizadas, vão moldando a ideia de que o errado, quando conveniente, deixa de ser erro e passa a ser esperteza.

Neste cenário, honestidade virou defeito de fábrica.

O sabotador é aplaudido, respeitado pelas conveniências; é tido como o bom, “gente fina”, desenrolado, cheio de jogo de cintura, o espertão. Por outro lado, o cidadão ordeiro é comumente taxado de coxinha, alienado, abestalhado, mané, sem graça e, dependendo da situação, até de “gente ruim”.

Quando foi que o certo virou motivo de vergonha?

Em que momento passamos a admirar quem burla regras?

As respostas são tão antigas quanto as próprias perguntas. Muito já se disse, e ainda hoje muito se escreve sobre o tema; um bom exemplo está na obra de Machado de Assis, que ironizava o comportamento social e a hipocrisia de grupos que se julgavam donos da verdade, reis e rainhas da cocada preta. Isso se revela no personagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas, onde o egoísmo e a aparência social são expostos com um humor fino e ácido.

Me parece que, hoje em dia, ser honesto não rende vantagem — rende apelido. Paciência. Há quem colecione lucros; eu, apelidos.