Desde a infância somos, de certo modo, programados por pais e parentes a acreditar que a vida é um vasto mar de alegrias. Poupam-nos dos fatos mais ásperos da existência — e, até certo ponto, isso é compreensível. A criança precisa edificar o seu mundo sob a tutela das ilusões: algumas que lhe oferecemos cuidadosamente, outras que ela mesma constrói com o pouco material que a realidade lhe fornece. Afinal, ainda não dispõe do conhecimento pleno do universo adulto. É justo que habite o seu próprio mundo e nele cresça, tanto quanto possível, envolta numa atmosfera ampla e luminosa de alegria.

Contudo, diferentemente de outros entes da natureza, não somos inteiramente programados. A vida de um cachorro, por exemplo, parece obedecer com admirável simplicidade ao seu instinto: come, dorme, late para o carteiro e, no geral, está em paz com o universo. Já a criatura humana carrega consigo algo mais inquietante: a consciência.

E por portar essa condição é que necessitamos de alguma dose de lucidez sobre a existência humana — ainda que saibamos, como observava Ernest Becker, em A negação da morte, que o mundo real é terrível demais para ser plenamente admitido.

Becker nos lembra que o homem é um animal pequeno, trêmulo, destinado ao declínio e à morte. Clarice Lispector, com sua habitual franqueza filosófica, já resumira a questão de forma ainda mais econômica: “A vida é horrível.”

Felizmente — ou perigosamente — a mesma consciência que nos expõe ao abismo também nos oferece um curioso recurso: a capacidade de criar ilusões. Graças a elas, conseguimos alterar, ao menos no pensamento, o quadro frio e impassível da vida. É por meio da ilusão que o homem passa a se perceber importante, quase indispensável ao universo e, em certos momentos de entusiasmo, até um pouco imortal.

Não por acaso, como lembrava o dramaturgo romano Terêncio, numa frase escrita por volta de 165 a.C., “nada do que é humano me é estranho”. Afinal, entre nossas muitas características humanas está justamente essa curiosa habilidade de inventar pequenas grandezas para suportar as grandes fragilidades.

No cotidiano, recorremos a essas pequenas ficções com admirável naturalidade. Quando nos despedimos de alguém, dizemos “até mais tarde” ou “até amanhã”, embora ninguém tenha garantias sequer sobre os próximos minutos.

A cada novo ano repetimos, com renovada convicção, que “agora vai”. E quando alguém está doente, mobilizamos imediatamente o clássico da esperança nacional: vai dar tudo certo. É uma frase tão eficiente que funciona quase como analgésico metafísico.

Na tentativa de aliviar o peso da existência, o homem ultrapassa os limites que a natureza lhe impõe: inventa, improvisa, cria projetos, crenças e expectativas — tudo para evitar olhar com demasiada fixidez para o limite da própria vida.

Nossas amizades, aliás, também se sustentam, em boa medida, sobre delicadas ilusões mútuas. Tendemos a enxergar o melhor no amigo, ignoramos certos defeitos menores (ou convenientemente enormes), confiamos em sua lealdade e acreditamos que aquela amizade resistirá a qualquer obstáculo — inclusive às inevitáveis discussões sobre política em grupo de WhatsApp.

Entretanto, a ilusão que ilumina também pode se transformar em venda que cega. Quando exageradas, as ilusões causam danos reais: conduzem a decepções profundas, a escolhas imprudentes e a sofrimentos desnecessários quando finalmente colidem com a dureza da realidade.

Na dosagem adequada, porém, as ilusões cumprem uma função quase terapêutica — experimentei algumas delas quando participei do Encontro para a Nova Consciência, em Campina Grande, no início da década de 1990.

Elas suavizam o peso cru da vida e costumam apresentar-se sob nomes mais nobres: esperança, resiliência, amor. Graças a essas pequenas arquiteturas do espírito, seguimos adiante — talvez não exatamente munidos de certezas, mas ao menos com uma boa dose de ânimo e, quem sabe, com a confortável impressão de que amanhã, com um pouco de sorte e alguma teimosia humana, as coisas realmente possam melhorar.