Em uma manhã movimentada, dessas em que a cidade parece atrasada de si mesma, dei por mim caminhando junto a um grande grupo de desconhecidos. Todos seguiam no mesmo sentido, em ritmo acelerado, como se houvesse um acordo silencioso sobre para aonde ir e quão rápido chegar.

Enquanto avançava com aquela multidão, percebia que, mesmo se quisesse diminuir o passo ou dar meia-volta, seria impelido — leia-se, atropelado — pelas pessoas ao meu redor. Algo parecia sussurrar aos meus pés: ande rápido, não atrapalhe o fluxo.

Eu era, ao mesmo tempo, psicologicamente e fisicamente forçado a seguir em frente.

Ainda assim, não foi sem resistência. Caminhava esbaforido, obrigado a escutar aquelas supostas músicas de mau gosto que escapavam das lojas — caixas de som estrategicamente posicionadas para atrair compradores (com aquele tipo de música, naquele volume, jamais entraria em uma delas).

Foi então que me ocorreu, de súbito: nem sempre a maioria está certa. Bastava sair do fluxo e seguir por conta própria. Dei meia-volta, esbarrei em alguns, recebi caras feias, mas fui abrindo caminho até a outra ponta da longa calçada.

Ali encontrei o silêncio de uma via livre — e, com ele, a liberdade de escolher outros passos.

Desde esse dia passei a seguir o meu próprio caminho, ainda que a maioria caminhe no sentido oposto ao que escolhi trilhar. Se o mundo me chama à vida em sociedade, eu aceito — mas não sem algum convencimento; não sigo apenas por seguir.

Não estou mais na fase de fazer teste para plateia difícil. Se o lugar não combinar comigo, eu agradeço a visita, me despeço com elegância e sigo meu caminho — preservando a amizade… à distância recomendada pelo fabricante.