Tenho visto e ouvido líderes religiosos utilizarem a religião de forma bastante conveniente, alguns têm tanta certeza de que recebem aval do céu que acreditam ter recebido documentação oficial direto do firmamento e título de profeta autoconcedido. Munidos de microfone, câmera e muitos seguidores nas redes sociais, pregam conforme a ocasião e adaptam a fé como quem ajusta o volume do som.

No fim, os princípios fundamentais acabam ficando em segundo plano, enquanto os interesses pessoais ocupam o púlpito principal.

Talvez essa crítica seja ainda mais incômoda porque nem sempre enxerguei a fé dessa maneira. Houve um tempo em que a religiosidade, para mim, não tinha palco, microfone nem interesses ocultos; era simples, quase ingênua, vivida no cotidiano e carregada de esperança. É dessa lembrança — da fé experimentada na infância — que parto para entender o quanto ela pode ser pura ou profundamente deturpada.

Quando jovem, participante de eventos religiosos, costumava ir à missa quase todos os domingos; algumas vezes — na maioria delas, é claro — ia apenas para ficar na calçada da igreja conversando com os coleguinhas e, sobretudo, com as coleguinhas, entre as quais sempre havia alguma que lhe despertava maior atenção, como se ali pudesse nascer algo além da simples amizade.

Entretanto, quando ia com minha avó ou com alguém mais responsável, levava comigo meu caderno de anotações e um livrinho cuja capa trazia o Menino Jesus de Praga, a quem eu me apegava quando a coisa ficava difícil.

Acreditava que estaria sempre protegido enquanto estivesse usando aquele livrinho. Ele era meu guia nas horas mais complicadas da vida de uma criança. De toda maneira, ajudava-me nas coisas mais simples:

para encontrar algo que havia perdido; para desejar que a menina de quem eu gostava passasse em frente à minha casa, ou que desse a graça da sua presença na calçada da Igrejinha; para que meu avô trouxesse uma sacola de chocolates; para ganhar no jogo de bila contra um inimigo daquela rua; para não cruzar o caminho com uma dupla de meninos — irmãos gêmeos — que gostavam de brigar e fazer chacota de mim.

Eram muitas as possibilidades de ajuda; o livrinho quase sempre estava ao meu lado. O maior teste a que o submeti foi contra as forças da natureza — embora eu tenha pensado, em um dia qualquer, usá-lo contra uma força ainda maior, a do universo.

Sempre que uma chuva forte estava por vir, os sinais eram dados pela força do vento e pelas nuvens escuras, minha avó pegava a água benta e o ramo bento (folhas de palmeira), colocava-os ao pé da janela e, em uma tigela, separava alguns punhados de farinha para serem jogados ao ar.

Contudo, por mais que ela lançasse aquele pó branco contra o vento, tanto mais o vento o devolvia contra ela. Nada surtiu efeito, a chuva veio mais intensa do que nas outras vezes e, junto com ela, relâmpagos fortes e ventos ainda mais violentos.

Os pingos da chuva eram tão intensos que o barulho do impacto no telhado e na bica de zinco tornava-se ensurdecedor; as janelas e o espelho vibravam a cada trovoada. Minha avó me levava para a sala e pedia que eu ficasse sentado, com os pés suspensos.

A tempestade era tão intensa que silenciou minha avó; na verdade, silenciou a nós dois. Mas não por muito tempo. Lembrei-me de que poderia pedir ajuda ao meu protetor, ainda que essa ajuda fosse algo muito, muito grande.

Corri para o meu quarto, sob os protestos da minha avó, e peguei o livrinho. Com ele em mãos, abri a janela e recitei a Oração ao Menino Jesus de Praga. Parecia que a chuva, o vento e as trovoadas não davam o menor valor ao que eu recitava.

Raios intensos iluminavam o quarto; minhas mãos tremiam de frio e de medo, mas eu seguia rezando…

Alguns minutos depois, como se fosse um milagre — ou uma negociação finalmente aceita —, a chuva e o vento amenizaram; os raios perderam o brilho mais agressivo, e as trovoadas passaram a soar distantes.

Minha avó entrou no quarto e pediu que eu fechasse a janela e voltasse a me sentar, pois a chuva já estava diminuindo. Mal sabia ela que fui eu — por intermédio do Menino Jesus de Praga, é claro — quem havia convencido a chuva a dar trégua.