É inegável a variedade de tipos de gente que existe mundo afora — das melhores às piores intenções, das atitudes mais nobres às mais mesquinhas.
Entre esses dois extremos, há um grupo peculiar: a das chamadas “gente boa, mas nem tanto”. Não chegam a ser completamente más, mas são movidas por um interesse tão bem disfarçado que até o diabo pediria o contato delas para fazer estágio.
Costumam estar ao seu lado por pura conveniência — e com um sorriso enganador que dá até para confundir com uma boa pessoa.
Todos os dias tento driblar o acaso para ver se não cruzo com tal pessoa. Improviso suplicas e cânticos supramundanos aos diversos seres personalistas para espantar os parasitas. Faço uso, quando inspirado, da música de Chico César:
Deus me proteja de mim
e da maldade de gente boa,
e da bondade da pessoa ruim. (…)
Mesmo assim, com todas essas cerimônias, a proteção não vem — deve ser porque não sigo os padrões contemporâneo de súplica e cânticos (desafinados? Talvez). Parece que a maldade de gente boa é mais potente que qualquer peditório e canção de petição. Ou talvez o Cara lá de cima tenha decidido não atender o cara cá de baixo, por pura birra celestial ou porque eu não sigo a cartilha dos que fazem fila para entrar no paraíso.
Seja lá como for, este estilo de gente encontra sempre um jeitinho de invadir meu território mental — entra sem bater, puxa energia dos meus neurônios e ainda deixa a descarga ligada no gato.
Talvez tenha vindo para me ensinar alguma lição — ou talvez seja só a vida fazendo estágio em psicologia. Lembro então de Nietzsche: “no fundo, acredito que quase toda ação humana traz consigo um traço de autointeresse”.
Penso isso nos momentos de satisfação… mas, logo em seguida, nos momentos de fraqueza emocional, concluo que, se for para ter esse tipo de professor, prefiro repetir de ano com gosto.
