Nihil humani a me alienum puto” (Nada do que é humano me é estranho) disse o sábio Terêncio (século 2 a.C.) em sua peça O atormentador de si mesmo. Esta frase, nas múltiplas interpretações que ela possa fomentar, nos apresenta o ser humano que vai desde o virtuoso ao desprezível, do santo ao demônio, do gênio ao ignorante. A dualidade é frequente na condição humana e reverbera nas atitudes e escolhas diárias.

Dessa forma, e trazendo a frase nos moldes míticos, podemos dizer assim: Dentro de cada um de nós moram o lado sombrio e o lado da luz. Qual será revelado em cada dia? Depende de qual deles você irá fornecer a chave de acesso a sociedade. Há sempre uma escolha. Ao darmos crédito ao lado da luz, cultivamos virtudes como a empatia, a justiça e a honestidade. Em oposição, ao sucumbirmos ao lado sombrio, alimentamos sentimentos de egoísmo, rancor e desonestidade.

Pendendo para o lado da luz, não há muito do que reclamar, mas se pender para o outro lado tudo ficará mais complicado para aquele que o libertou e para aqueles que entraram no campo de ação da pessoa. Felizmente, há freios e contrapesos em uma sociedade civilizada, prescrições jurídicas e religiosas nas quais determinam, exigem ou aconselham a maneira como devemos nos comportar diante do outro ou de algo, até diante de nós mesmos.

Contudo, há a possibilidade de alguém não seguir estas normas. Neste caso chamamos isso de anomia (ausência de valores éticos e morais), pessoa com comportamento delitivo. Um anarquista.

Ao deparar-se com escolhas sem os parâmetros de referência social há uma certeza de que quase nada de bom, para a comunidade, poderá ser oferecido, principalmente se esta pessoa é permeada de ideologia retrógrada, asquerosa, cheia de ranço, e ego excessivamente elevado. Um indivíduo detentor destas qualidades é um idiota puro, um idiota raiz (aérea), como dizem hoje. Para este, tudo é permitido. Tudo é questão de momento, já dizia um trecho da música de Roberto Carlos. Sua postura vai depender das conjecturas que se apresentam, e claro, ele vai direcioná-las sempre em seu favor, em prejuízo de outrem; é um ser apático, indiferente ao outro, pois é puro narcisista, um profundo egoísta.

Este tipo de pessoa é bem visível, não tem como se esconder, é espaçosa, de longe é possível identificá-la. Todavia existe outro tipo, da mesma linhagem (parecem gêmeos bivitelinos), porém tem receio por dar preferência, embora nem sempre, em libertar o lado sombrio; parece ter uma certa vergonha de mostrar a sua predileção. Vou classificá-la de média anomia — não porque seu impulso seja mais fraco, ou metade da outra; pelo contrário, é mais perigosa, é mais escorregadia, é dissimulada, maliciosa, mentirosa — é necessário muito cuidado quando estiver perto dela, posto que tenta ocultar o lado sombrio, como gatos escondem suas unhas.

Tem facilidade de causar um certo dano na pessoa a qual escolheu para dissipar sua aflição, a pessoa próxima a ela serve de escape para suas catarses maledicentes. De longe, é uma boa pessoa, cumpridora do dever; mas de perto (lembrando um trecho da música de Caetano, Vaca profana: “de perto ninguém é normal”), sob o jugo do lado sombrio, é puramente anormal, com anormalidade raiz (subterrânea). É fria, calculista; por isso, tão perigosa.

É também sugadora de energia (seria um dementador, como em Harry Potter?). Se acha esperta, vive de fazer a outra de trouxa (já dizia um amigo meu: enquanto houver otário, malandro não passa fome). “DESCULPE” é seu lema (um lema contínuo, infinito); aliás, é uma das armas que usa, porque ela sabe: o lado da luz sempre arranja um jeito de acreditar que o lado sombrio poderá voltar para seu lugar de origem, presa e sob controle da razão e do sentimento. Mas tudo tem limite, a luz poderá encontrar-se apagada, naquele momento, quando o pedido de desculpa vier.

Demóstenes já dizia que a desconfiança é uma proteção contra este tipo de gente, bem mais eficiente do que usar muros e muralhas. “Caso não se queira ser um joguete nas mãos de qualquer patife e objeto de chacota de qualquer imbecil, então a primeira regra é: retrair-se!”, disse Schopenhauer. O mesmo autor escreve:

“O tom mais correto diante delas é a ironia; mas uma ironia sem nenhuma afetação, uma ironia calma, que não traia a si mesma. Nunca se deve direcioná-la diretamente à pessoa com quem se conversa. Não cessar de praticá-la: eis o que considero uma vitória particular. Temos de nos acostumar a ouvir tudo – até aquilo que mais poderia nos enfurecer – de maneira bastante serena, e com isso ponderar os absurdos do interlocutor e de suas opiniões, sempre evitando qualquer conflito. Tempos depois pensaremos na cena com satisfação pessoal”.

Os melhores dias da vida são os que escapam primeiro dos tristes mortais, dizia Virgílio.

Acho que a coisa não deve ser levada para o lado tão radical como querem Schopenhauer e Virgílio. Prefiro sempre a frase de Terêncio, ainda que a de Demóstenes seja menos traumática e nos ajuda a nos protegermos de gente desse calibre.

Reforço, se estes dois lados estão em nós, e se temos a possibilidade da escolha, então a pessoa terá total responsabilidade nas causas e efeitos do que poderá vir. Para escolher bem é preciso associar a razão ao sentimento, pois como dizia Feurstein, a mente racional é pouco mais do que uma máquina de calcular. Para não cair nas garras do submundo, é preciso treinar a mente. Há sempre a possibilidade de mudança, de desvio de rota para um lado mais humano, nada está perdido para quem quer mudar as más atitudes diante de si e do próximo.