Durante um certo período do dia, às vezes, há momento no qual os meus sentidos estão tão ativos que aparentam alongar o instante. Detalhes são perceptíveis com tanta sensibilidade que parecem passar em câmera lenta.

Pois bem, acontece que em um dia desse, essa sensibilidade ficou à flor da pele — tipo aquela canção de Zeca Baleiro: “Ando tão à flor da pele/Qualquer beijo de novela me faz chorar”. Foi neste dia em que percebi, ou parecia perceber, uma sensação diferente do normal, com uma aparência quando havia lido o livro O mito de Sísifo, de Albert Camus. Em cada descrição experienciava cada gota de suor do personagem, cada esforço, e, depois de tudo, a felicidade proposta pelo autor do livro diante do sofrimento do personagem, o reconhecimento da sua existência no mundo.

Para o entendimento do que venho a relatar será necessário um breve resumo do que seja este mito da cultura grega:

O personagem, Sísifo, sob castigo (o suplício da pedra) de Zeus, é compelido a rolar uma grande rocha colina acima para colocá-la do outro lado da montanha. Acontece que, ao chegar bem próximo ao topo, na iminência do seu objetivo, suas forças se exaurem e a grande rocha rola montanha abaixo. Assim, ad eternum, a rocha sempre rolava de volta para o fundo da montanha, e Sísifo é obrigado a começar tudo de novo.

Em nossa época foi cunhado a expressão “Trabalho de Sísifo” como um trabalho inútil (algo rotineiro e exaustivo). Em seu ensaio Camus utiliza a metáfora para apresentar o conceito filosófico sobre o quão a existência é absurda. Porém, é neste absurdo que o personagem, Sísifo, descobre uma forma plena de viver.

Ademais, feito as explicações, volto ao fato pessoal com uma dosagem ficcional e metafórica, além de propor uma certa analogia (em colchetes) do ocorrido com a metáfora.

Era manhã de um dia tão normal que tudo o que eu fazia era como se estivesse programado — ligado no piloto automático. Nada de novo, como dizia a expressão: “tudo como dantes no quartel de Abrantes”. Somente o esforço necessário para dar o início ao dia. Dessa forma, começava então [a partir do sopé, rolar a rocha montanha acima].

A normalidade consistia em repetir as tarefas diárias domésticas e do trabalho. “Sempre há algo de novo e afinal sempre novamente o mesmo”, dizia Adorno. A monotonia fazia-me pensar na frase de Llosa: “era como se as horas perdessem o relógio”. Compelido à rotina, tocava a vida à frente, o cansaço chegava antes do fim do dia, a morosidade tomava contado do corpo e da mente.

A lembrança do dia seguinte, a quase certeza que iria se repetir, era a força de atrito — obstáculo que impulsionava em sentido contrário. “Os dias acabam sempre indo ao encontro dos dias”, lembrava Camus. O esforço na monotonia lembrava a pedra em que Sísifo rolava [depois de um certo tempo, na subida, ao empurrar a grande pedra, o suor toma de conta do corpo, parte deste líquido escorriam para os olhos e se uniam as partículas de poeiras que se soltavam do mineral. A subida era penosa.], fazia lembrar também a frase de Oscar Wilde: “A vida é uma grande desilusão”.

Contudo, para temperar o dia [e aliviar, por distração, o esforço em rolar a rocha colina acima], no mais que de repente, uma criatura do meu contentamento entrou em contato, há dias não havia, propôs a mim uma incumbência (era a deixa para a ação do encontro). Iria vê-la; era algo rápido, mas iria vê-la pessoalmente. Nas brechas do tempo, entre o ócio o fazimento, eu saía em sua direção. Relembrava todo o esforço realizado para suster a sua ausência [era como se empurrasse aquela rocha pesada. O cansaço atingia o ápice, mas o topo estava bem próximo].

No caminho, em cada semáforo fechado, degustava os segundos como quem aprecia um bom vinho, sensação indescritível. Contava as esquinas, estava na vigésima terceira. Faltavam poucas até o encontro. Reduzi a velocidade para apreciar melhor essa sensação, embora quisesse chegar logo (estava diante de um paradoxo?).

Olhar para a criatura era a minha melhor esperança naquele momento, [volto a lembrar: o objetivo de Sísifo era colocar a rocha no cume da montanha e rolá-la para o outro lado] estar próximo dela e conseguir alongar o tempo, era meu objetivo.

Pois bem, é chegado o momento, o tão esperado momento. Foi entregue a incumbência em mãos (era meu dever naquele momento), seguido de um clima simplório e sublime: olhos nos olhos, simpatias trocadas e um sonoro, educadíssimo, tchau! Um tchau do tipo: até a próxima. Neste momento lembrei, então, de Sísifo que [sem forças para colocar a rocha no topo da colina, braços e pernas exaustos, a grande rocha vence a luta do dia e desce montanha abaixo, voltando para o sopé].

Ao voltar para casa, [quando Sísifo desce para pegar novamente a rocha], reconheço que tudo na vida é fugaz, e que eu deveria, a luz da minha racionalidade, preparar-me para tal, posto que é categórico. Uma pessoa só é uma pessoa quando tem o poder de dar sentido ao que a cerca, disse uma vez Kant.

A despeito de tudo, o momento foi fascinante; pequenas coisas, sublimes até, enchem o coração de regozijo na certeza de que, no meio da insipidez do dia a dia, é possível encontrar a alegria de um caminho. É preciso consciência para trilhar a estrada da vida (a ignorância é uma falsa alegria); é preciso também assentir a dimensão trágica da vida se quiser amenizar o peso da existência e sentir a felicidade em sua plenitude (ainda que fugaz). Lembro a frase de Marco Aurélio em suas Meditações: “Nada de novo: tudo é costumeiro e transitório”.

[A rocha vence Sísifo, e ela volta para o sopé da montanha]. É nessa hora onde é preciso cumprir o dever e viver conforme o que se apresenta, “a felicidade é o caminho” já dizia o monge budista Thich Nhat Hanh. [É ao descer a montanha para retomar sua tarefa que Sísifo tem consciência da sua existência, a consciência do dever a ser realizado. É preciso imaginar Sísifo feliz, dizia Camus].