Na adolescência estudei pouco, mas estudei. Não fui um jovem ativo, mas também não fui um jovem passivo. A idade me impelia ao movimento, só que ao léu — era como se estivesse num barco, em mar revolto, que corria em árvore seca e de vento em popa — embora já tivesse uma noção, ainda que pequena, do rumo a tomar. Sabia que tinha que lutar por uma causa, só não sabia qual. Testei minha capacidade de navegação, era neófito. Arrisquei. (Os mares agitados da adolescência são perigosos, é preciso coragem para aventurar-se, muitas vezes a viagem é sem leme. A baixa ausência do medo e a alta presença da curiosidade é a força motriz da idade).

Aproveitei os ventos da época, período de efervescência social (ambiental, sexual, trabalhista, racial e outros) e política (Diretas já, Os caras-pintadas etc.), no qual ouvia-se frequentemente que a juventude era o futuro do Brasil — fui até voluntário pela Cruz Vermelha, participei de movimentos político-sociais (desfilei pelo Grito dos Excluídos), além da tantas outras coisas, às vezes até descabidas.

Agora já adulto, tenho as minhas reservas. Assumo outras formas de estratégias: a especulativa, a pragmática e a parcimoniosa. A idade impõe freios, tudo agora é pensado e repensado. Nada de “a lá impulsos”. Sigo a dica de Marco Aurélio, no livro Meditações: “Caminhe e corra sempre pelo caminho mais curto, e o caminho curto é aquele conforme a natureza, de modo que tudo o que digas e faças seja maximamente sensato”.

O barco no qual navego está em águas mais amenas, e ainda utilizo velas e lemes com ventos ora tranquilos, ora agitados, às vezes na popa e outras vezes na proa, mas com possibilidade de navegar sem perder o rumo. A frase de Willian Shakespeare reflete o momento: “A água corre suave quando o rio é fundo”.

Contudo, como é de praxes (para mim e para todos) a contingência sempre esteve em meu encalço, até porque não tenho total controle do que possa acontecer. As águas revoltas da vida nos jogam para todos os lados, e têm muita força. É claro que a imprevisibilidade também não é cem por cento, detemos minimamente um certo controle.

Neste caso, posso guiar meu barco utilizando os recursos materiais e conhecimento náuticos (leia-se experiência), obtidos a duras penas. Mesmo assim é preciso um certo ceticismo; nada é totalmente seguro, embora carregue comigo um compêndio de experiências.

A gente aprende que cada idade tem suas aventuras, seus regozijos e contratempos. Cada ação uma causa, seja em seu favor ou contra. Existe um provérbio que diz: “águas mansas não fazem bons marinheiros”. Contudo, os marinheiros que não gozam um pouco de paz em águas mansas não serão, também, bons marinheiros.

É necessário equilíbrio no caos. Marco Aurélio dizia que se faz necessário “conservar-se forte e constante na trilha da moderação e da sobriedade em todas as situações”. O segredo de uma boa vida há muito já foi apresentado pelos grandes sábios do oriente e do ocidente: Nem tanto, nem tão pouco (o equilíbrio é a chave).