Veja a parte 1 AQUI
(…)
Logo após fazer os pedidos, ela reza o pai nosso. Em seguida, levanta-se, volta para a cozinha, coloca o pouco alimento do café das crianças na mesa. Da janela dos fundos ela avisa que o café está pronto. Minutos depois as crianças entram pela porta da cozinha. Mauro entra correndo, ofegante e com o rosto contraído, como quem prende o choro, olha seriamente para mãe e diz:
— Mamãe! Mamãe! Luluzinha tá doente, não quer comer e só fica deitada; ela num brinca mais comigo.
— Luluzinha é uma idosa, já tá velhinha, não consegue mais ser como era antes, filho. Ela não tá doente, precisa de descanso. — disse Zefinha, de maneira apreensiva, ao ver também que Mariene parecia sentir a mesma tristeza. — A mesma coisa tá acontecendo com Belinha — completou ao abaixar-se e olhar para Mariene.
— Ela vai morrer, mãe? — perguntou Mariene, com os olhos lacrimejando.
— Vai chegar uma hora que ela vai morrer, faz parte da vida. Deus quer assim.
— Deus não gosta nem de mim e nem de Mauro e nem gosta de Belinha e nem de Luluzinha; só quer o mal, Ele. — disse Mariene em soluços, com secreções a escorrerem pelo nariz.
— É sim, mãe, Deus é mal. Não gosto dele. — concordou Mauro, ao cruzar os braços e fazer cara de desagrado.
— Não diga isso, meninos. Deus só quer o bem da gente. Agora tome o seu café. Mauro também, tome o café. Depois vá cuidar dos bichos.
Sem entender as causas daquilo tudo, com a culpabilidade lançada a Deus pela doença dos bichinhos e da morte iminente, as crianças molham o pão seco e duro no café para deglutir melhor. Sob resmungo e goladas apressadas as crianças querem voltar logo ao galinheiro para tentar salvar os seus protegidos; para tanto, e ainda sentindo fome, guardam, pedaços de pães nos potinhos coloridos. Eles mal terminam o último gole do café e saem correndo.
Enquanto as crianças resmungavam e comiam, Zefinha se perdia em pensamentos — não viu quando as crianças, ao deixarem de comer os pães por inteiro, colocaram parte da comida nos potes coloridos. Em pensamentos, Zefinha culpava-se por deixar as crianças criarem vínculos com os animais que eles criavam para comer. Lembrou novamente, quando criança, da conversa que sua avó teve com sua mãe — Zefinha estava por detrás da porta quando ouviu sua avó conversar com sua mãe: “não deixe as crianças colocarem nome nas galinhas e nem nos patos. Diga que elas só podem colocar nomes somente nos cachorros e nos gatos”.
Daquele dia em diante ela ficou sem entender o porquê, ficou com raiva da avó por alguns dias, pois a sua fala tornou-se regra em sua casa. Contudo, esta regra só ficou clara para Zefinha quando depois de muito tempo ela se depara com situação semelhante, só que as regras não foram seguidas na íntegra para seus filhos. Ela não imaginava que passaria por dificuldades de alimentação, posto que detinha uma criação com bastantes galinhas.
Depois de algumas horas pensativa, sentada de fronte ao oratório, vai até a janela dos fundos ver se as crianças ainda estão próximo ao galinheiro. Percebe que elas estão agora sentadas a olhar Belinha e Luluzinha de pé a ciscarem, vagarosamente, o terreiro. Ao longe escuta o latido de um cão: “deve ser Zé”, pensa. Vai em direção ao oratório, ajoelha-se, e faz outra vez o pedido:
— “Glorioso São Francisco, santo da simplicidade, do amor e da alegria, que no céu contemplai a perfeição infinita de Deus, lança sobre a gente o seu olhar cheio de bondade. Socorra a gente dessa dificuldade” …
O latido agora estava mais próximo. A esperança parecia crescer com o segundo pedido, a fé a qual o companheiro havia pedido a ela logo cedo apresenta-se agora mais sólida.
— “… Peça ao Pai e Criador que traga pra gente a graça que pedi por sua intercessão, o senhor que sempre foi tão amigo do Pai. São Francisco de Assis, rogai pela gente. Amém”.
Um certo conforto encobre a tristeza do momento. Sente uma renovação no humor, cresce a confiança na graça divina e na força de todos os santos, em especial São Francisco. Levanta-se, vai até a porta da frente e estende o olhar em direção ao horizonte; ao longe, por detrás de alguns arbustos secos, ela avista um vulto em deslocamento — não enxergava bem a uma certa distância, mas tinha certeza de que eram eles, Zé e Peri, vindo apressadamente para avisar que conseguiram capturar alguma caça.
Ela sente um pequeno alívio, seu rosto, pesado pela ação do tempo e dos dias difíceis, abre-se num sorriso de sincera alegria. Ainda a uma certa distância ela conseguia enxergar alguns detalhes de Zé — corpo franzino, cabelos arrepiados e duros; a cada momento o disforme tomava forma, o vulto franzino agora tinha aparência; parecia não ter mudado, não estava com as feições de alegria, era quase a mesma quando havia saído, com alguma diferença, seu semblante estava mais duro, massivo e sem vida.
Contudo, o que mais interessava a Zefinha era um dos apetrechos que ele carregava: o bornal. Ela franziu a testa e apertou os olhos para distinguir aquele objeto ao qual estava pendurado em seu ombro — estava vazio como antes. Suspirou profundamente, sentiu a esperança perder força. Agora não havia mais dúvida, a poucos metros de casa, Zé acenava com pesar, e ao chegar próximo da companheira disse:
— Prepare as galinhas, a gente não tem outra opção. Deixe que eu distraio as crianças.
Aquela voz altiva, determinada, dava um ultimato. Parecia que Zé tinha se preparado psicologicamente no caminho para proferir aquilo com tamanha determinação. Zefinha chorava copiosamente, mas controlava os suspiros para evitar que as crianças ouvissem. Ela sabia, o infortúnio era somente dela, a responsável pela matança — seus filhos tinham visto uma vez ela matar uma galinha, tinham ficado horrorizados, com dó da bichinha indefesa. Após alguns minutos, depois de enxugar as lágrimas, aceita a sentença de Zé: “a gente não tem mais opção” e lembra, balançando a cabeça de maneira a concordar com as falas dos filhos: “Deus é mal”.
Não demorou muito para que lembrasse também da última missa, há alguns anos, na qual o padre falara sobre a fé em seu sermão onde citou Jó 15:16. Conscientemente sentiu-se culpada por fraquejar em suas crenças. Abaixa a cabeça e pede perdão. De súbito, algo veio em sua mente, por alguns segundos a coisa era opaca, entretanto clareou rapidamente em forma lúcida seguida de uma intuição que a fez proclamar para seu interior: “Deus não é mal! Olhou para Zé e disse:
— Retire Marine e Mauro de perto das galinhas e leve para a frente da casa, demore alguns minuto e peça para que eles dê um pedaço de pão a Belinha e Luluzinha. Eu vou matar as duas e deixar deitada no chão, pra que eles olhe e veja Belinha e Luluzinha morta. A gente vai dizer que Deus veio e levou a alma delas. A gente vai fazer o enterro, mas depois a gente irá escavar, alguns minutos depois, e levar para o fogão.
Zé ficou sem saber o que dizer. Achou o plano muito macabro, não entendia o que se passava dentro da mente de Zefinha, mesmo assim concordou. Pressentiu que aquela coisa armada iria aliviar o sofrimento de sua companheira. Na verdade, Zefinha havia encontrado uma saída para não ser culpada pelo assassinato das galinhas, esse peso ela transferiria para Deus.
No quintal as crianças olhavam para as galinhas de estimação, estavam novamente deitadas e cochilando, cansadas e fracas. Zé chama as crianças para irem até a porta da frente para mostrar algo. As crianças levantam-se e correm, pensavam que seu pai iria mostrar outro tejo morto — no ano passado Zé havia mostrado as crianças um tejo que Peri havia matado. Imediatamente Zefinha corre para o galinheiro e usa a técnica que aprendera com a mãe em tempo recorde com tanta eficiência que, possivelmente, Belinha e Luluzinha nem se deu conta da dor. Após fazer o serviço ela coloca novamente a galinha na mesma pose que estavam, só que agora elas estavam com a cabeça encostando no chão. Zefinha volta para dentro de casa e faz um gesto de ‘ok’ para Zé.
Minutos depois Mauro e Mariene, aos prantos, estão ajudando a sua mãe e a seu pai a cavarem as covas para enterrar as suas amiguinhas. Zé escolhe o local a cinco metros da casa, e após o cerimonial de despedida — onde as crianças pegam um pouco de areia do chão e jogam sobre as galinhas — ele introduz duas cruzes. Pela primeira vez as crianças estão diante do sentimento de perda; sob gritos e soluços elas culpam a Deus e dizem que não gostam mais Dele. Duas horas depois elas estão a mesa, cada qual saboreando com muito gosto o alimento custoso.
