— Mãe, posso colocar o nome no bichinho? — perguntou Mariene apontando para dentro de um galinheiro, onde estava o primeiro pintinho que acabara de sair de um dos dois ovos.
Era um galinheiro bem construindo, de madeira roliça com cobertura de palha de carnaúba. A estrutura ficava atrás da casa onde eles moravam, casinhola de pau a pique, trabalhada com esmero. Nela vivem quatro pessoas: José Silveira, Zefinha Silvia e seus dois filhos, Mauro Silveira e Mariene Silva, bivitelinos, com seis anos de idade. A família sobrevive no Sertão nordestino, há cinco anos, distante cem quilômetros da cidade mais próxima. A roça, a caça de animais silvestre e a criação de galinhas são seus sustentos.
Zefinha havia passado ordem a filha de seis anos para que somente desse o nome ao pintinho quando ela, sua mãe, permitisse. Mariene não sabia o porquê da regra, mas obedecia.
— Sim, filha. Mas somente neste pintinho. — disse Zefinha sem nem olhar para Mariene, pois falava com José sobre a longa estiagem e a escassez de comida e água.
— Zé, — era assim que Zefinha chamava o companheiro — faz dias que a gente não come bem, as crianças estão magras e brancas, estão com olhos amarelados. Até dia desses a gente vinha se servindo da nossa criação de galinhas, mas reduzimos muito o consumo de carne só para poupar nossa criação. Lembro que no ano passado a gente tinha mais de cinquenta cabeça, hoje só temos cinco galináceo. Neste ritmo vamos já chegar nas galinhas que Mariene e Mauro colocaram os nomes, e isso não seria nada bom para eles. Precisamos dar um jeito nisso.
José, sentado num banco próximo ao fogão à lenha — onde Zefinha colocava o bule com água para o café da manhã — se preparava para costurar o seu bornal para caçada. De cabeça baixa, olhos concentrados em passar o náilon na agulha de tamanho 16/100, em silêncio, ouvia os reclames de Zefinha.
— … além do mais, — continuou — nem água boa temos para beber, aquele poço antigo está cheio de lodo. Se na semana que vem não conseguir coisa melhor para comer ou beber vamos ter que ir embora daqui.
José mantinha-se calado, porém, os olhos embaçados por um fluxo leve e incontrolável de lágrimas falavam por si só. De cabeça baixa, tentava esconder o desconforto da sua incapacidade de garantir o sustento da casa naquele período de estiagem — aos poucos os animais domésticos ficavam escassos e o coração de José apertava só em lembrar o sofrimento dos filhos quando chegar a vez de Belinha e Luluzinha, as duas galinhas mais antigas do galinheiro, das quais foram os dois primeiros animais a receberem os nomes que seus filhos colocaram.
Belinha e Luluzinha estavam com idade avançada, quase passando do tempo de ir para a panela, tinham as cristas e as barbelas descoloradas e enrugadas, algumas penas já faziam falta, e as que estavam presentes em seu corpo tinham perdido o brilho, suas unhas eram longas, desgastadas e largas, seus bicos desgastados e rugosos, as patas de ambas eram acinzentadas e cobertas por escamas, mas eram o xodó das crianças. Os dois animaizinhos os acompanhavam desde pequenos.
— Deus sabe que prefiro ficar com fome do que matar os bichinhos das crianças, seria melhor a gente ir embora e levar as duas galinhas com a gente — disse Zefinha, com a voz embargada e rosto apreensivo, ao retomar a conversa sobre matar ou não as duas galinhas já idosas.
— Deixe de falar besteira, mulher! Acha que manter as galinhas viva, no momento como esse, resolverá o problema de nós?! Você num tem medo do castigo de Deus falando dessa maneira? Matar os filho de fome só pra não matar essas galinhas já velha. Eu sei também que a água num tá boa, mas é o que temos. Não tem água no riacho, não chove a mês, você quer que eu faça milagre, é?! E como você acha que iremos a algum lugar se não tem transporte? Vamos a pé, percorrer mais de vinte légua com essas crianças do jeito que está? A gente vai sobreviver com o que temos. É pouco, eu sei, mas a gente aguenta mais um pouco. Dezembro está próximo, Deus vai trazer chuva, mulher! Sostô! Vive rezando e parece que não acredita em Deus. Tenha fé!
Zefinha havia terminado de coar o café, colocou-a na xícara e levou para a mesa onde estava José.
Sabe aquela massa de pão que seu irmão trouxe em fevereiro quando veio aqui? Acabou hoje, só consegui fazer dois pão. Vamos deixar para as crianças — disse com voz embargada.
José deixou descansar a agulha sobre a mesa e pegou a xícara com o café, deu o primeiro sopro para dentro da xícara e bebeu o líquido fumacento.
— Vou sair agora para caçar, — disse ao dar o último gole — ver se pego alguma rolinha. Se não conseguir, vamos colocar uma das galinhas mais velha no fogo para poder almoçar — disse resoluto e com a cara fechada, sem demonstrar diante de Zefinha qualquer sentimento de empatia.
José sabia que a viagem em busca de rolinha era só mais um pretexto para dar esperança a Zefinha e a ele mesmo, não havia rolinha; elas não apareciam há sete meses. Não havia frutos nas árvores, estavam sem folhas e com os caules secos, não havia água nos riachos.
— Não poderia ser as outras galinhas mais jovens? Perguntou Zefinha, com um certo desconforto na voz, quase um entalo, posto que sabia que não era bem assim, entretanto guardava uma centelha fina de esperança em ouvir um “sim” de José, mesmo que esse ‘sim’ empurrasse o problema, ainda mais grave, para adiante.
— Não. Elas ainda está pondo. As velhas não põem mais, só servem para a panela. Logo, logo elas vai morrer de velhice, provavelmente até de uma doença, e se a gente não a comer elas serão duas que se vão sem a gente aproveitar. — disse José, levantando-se do assento com o bornal no ombro, a espingarda em uma das mãos, e o alforge na outra.
José sai apressado, leva consigo Peri, cão pé-duro, o companheiro de caça no qual, por sete anos, o seguia nas empreitadas. Contudo, havia dias que o companheiro não prestava seus serviços na caça. Peri estava só o couro e o osso, contava-se todas as costelas, tinha uma expressão de cansaço, seu pelo era opaco e desarrumado, ultimamente movia-se com lentidão, vez em quando José parava para que Peri o acompanha-se. Peri já não conseguia mais correr com eficiência, José sabia disso, mesmo assim o levava para caçar. O animal passava quase todo o período da caça deitado em raras sombras de arbustos.
Zefinha, ainda encostada ao fogão a lenha, preparava o café da manhã das crianças que já estão fora de seu quarto — era costume as crianças se levantarem cedo, pegar seus pequenos potinhos de plástico coloridos, abastecer com alimento, e irem dar as galinhas de estimação. Naquele dia era farelo de pão, sobra do café da manhã de ontem. Nesse momento ela ouve as crianças conversando e vai em direção a janela dos fundos, sem deixá-la notar, pega uma cadeira e fica a escutar:
— Coma, Belinha! — disse Mariene diante do animal sem ação — Coma, vai! Mauro, ela só quer dormir!
— Lulu também, Mariene — disse Mauro, ao abrir o bico de Luluzinha e empurrar os farelos diante da recusa do animal.
Ao olhar a cena Zefinha baixa a cabeça, um certo desânimo a fez sentir um incômodo gélido penetrar em sua pele. Essa sensação estranha trazia consigo uma tristeza difusa, anônima, mas latente. “O que é isso, meu Deus!”, sussurrava para si, diante de uma gota de lágrima que caia no piso seco de terra batida e era imediatamente absorvida. A coisa pulsante não tinha forma, mas tinha peso e ela precisava saber de onde estava vindo aquele desânimo:
“Não corra com de medo do problema porque ele fica grande, enfrente ele de cara limpa e ele ficará pequeno”, dizia Zenira, sua mãe.
Zefinha sabia que não era porque as galinhas não queriam se alimentar, nem pelos sofrimentos dos dois animais nos quais, diante do fardo da idade, e da fome feroz imposto pela natureza, iriam para a panela tão logo José não conseguisse trazer algo para comer — Não, não era pela morte das galinhas, pois havia matado tantas que o hábito do exercício, quase diário, não havia deixado sequelas; sua mãe, Zenira, a ensinara com rigor:
“Menina, fique em pé. Agora pegue a perna da galinha com a mão esquerda, deixe ela de cabeça para baixo, apoie o corpo do bicho na cocha direita e, com a mão direita, pegue a cabeça da galinha e puxe para baixo até sentir um estalo no pescoço do bicho. Pronto! Já era!”.
Essa sensação estranha e gélida era pelos seus filhos, tão novos tendo que enfrentar a falta de alimento e a experiência da perda com a morte dos animais de estimação. Era também pela sua finada mãe, mulher forte e decidida, e pela sua falecida avó, Zilmar, a qual conhecera a vida sofrida dela pelos relatos de sua mãe.
Zilmar, ainda menina, havia enfrentado a seca de quinze, uma época de estiagem severa no Sertão nordestino, onde ela, Zilmar e suas três irmãs, jantavam sopa de ossos lisos, ruídos do almoço, mergulhados em água salgada e quente. Zefinha lutava para espantar esse desconforto pelo conhecimento da causa. Contudo, o desconforto parecia crescer, posto que agora sentia uma tristeza aguda com nome e sobrenome.
. “…, mas não se engane, ao parar ele vai parecer crescer, mas logo, logo ele diminui de tamanho, paciência e fé em Deus”, recordou novamente a última parte do ensinamento de Zilmar que sua mãe replicava sempre que um problema maior aparecia. Zefinha levanta a cabeça, enxuga as lágrimas e volta a olhar para as crianças que agora estão com os dois animaizinhos no colo.
Ela levanta-se e vai até o altar que fica encostado na parede de frente a porta de entrada. No altar construído em barro vermelho estavam a imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, num quadro em madeira pintada em forma de mosaico, no formato bizantino, um desenho, feito a caneta tinteiro, com molduras douradas em vidro duplo de frei Damião — recebera de doação de um desconhecido na última missa que participara quando o Frei visitou a capela na qual costumara ir com sua mãe —, e ao lado destes quadros estavam imagem, em gesso, de Jesus de braços aberto, a imagem, também em gesso, de são Francisco de Assis, aquém ela fez a oração:
“Glorioso São Francisco, santo da simplicidade, do amor e da alegria, que no céu contemplai a perfeição infinita de Deus, lança sobre a gente o seu olhar cheio de bondade. Socorra a gente dessa dificuldade. Peça ao Pai e Criador, que traga pra gente a graça que pedi por sua intercessão, o senhor que sempre foi tão amigo do Pai. São Francisco de Assis, rogai pela gente. Amém”.
O “amém” foi dito com tanta fé que ela teve a certeza de que José chegaria com a caça que iriam alimentá-los por uma semana, tempo suficiente para que ela fizesse nova oração e suplicasse por uma ajuda divina ou humana.
