Recentemente, ao tentar conversar com um colega meu nos moldes mais antigo — sentado, olho no olho e papo a papo — em uma cafeteria da cidade senti que não conseguiria atingir o intento, o caro colega cometeu diversos erros de indelicadeza.
Inicialmente ao sentarmos a mesa ele já foi logo retirando o celular do bolso e o colocou sobre a mesa, mas antes de deixá-lo em repouso deu uma espiadinha (a primeira, de muitas).
Os primeiros dez minutos foram tranquilos, mas depois disso a coisa descambou. Eu não conseguia terminar o raciocínio de um determinado assunto sem que ele fosse tentado pelo som das notificações das mensagens no WhatsApp.
A cada notificação, uma pegada; e a cada pegada, eu parava de falar, ficava em stand-by — aproveitava o momento de silêncio para dar aquela mordidinha num saboroso bolo.
Depois de muitas vezes sendo coagido a silenciar, para que o indivíduo pudesse dar a devida atenção ao celular, fui levado a tomar uma atitude firme (diante daquela criança com cara de adulto), mas sem perder a ternura. Para isso, optei por feri a mim mesmo, usei a tática da tolerância (Sponville dizia que a tolerância só vale contra si mesmo, e a favor de outrem) e falei com a ‘cara de simpático’:
— Você não acharia melhor responder logo, já que o aparelho é quem dar as cartas por aqui?
Ele olhou para mim sorrindo e disse:
— Não, estou somente conferindo (leia-se: lendo e ouvindo); é de uma amiga de infância.
E em seguida completou taxativo, como querendo dizer que a nossa conversa era a mais importante naquele momento (embora não parecesse):
— Ela que espere! até porque, não sabe que visualizei a mensagem.
Na verdade, ele estava lendo (e ouvindo os áudios) as mensagens daquela pessoa; utilizava-se de um recurso que o WhatsApp oferece que é desativar a confirmação de leitura, ou seja, ele acessava às escondidas.
Enquanto o colega conferia as mensagens, sem que a outra pessoa soubesse que ele tinha acessado, eu tomava um gole de café. Nesse ínterim, matutava de maneira trivializada: ‘Se faz com o mais próximo (de seu convívio), poderá fazer com qualquer um. Então, possivelmente, já fez comigo’.
Ter acesso as mensagens às escondidas, creio eu, não seria algo educado e respeitoso. Se não tem como responder na hora, não acesse. Se quer acessar, então mande uma mensagem; por exemplo: “responderei quando for possível”. A meu ver, prefiro que as marcaçõezinhas estejam azuis, mesmo que não me responda na hora, do que acessar por baixo dos panos e fingir que não viu.
Cada um tem à sua maneira de se representar diante da sociedade; temos nossas máscaras, e muitas delas são horríveis. Mas nada nos impede que devemos ter uma certa polidez diante das pessoas nas quais estão ao nosso redor, partilham do nosso mundo. Sei que é difícil ter cem por cento de polidez em todos os momentos, mas isso não impede de tentar.
Creio que a transparência, uma forma de respeito com o outro, deve ser a via principal por onde duas pessoas (ou mais) — sejam colegas, amigos, namorados etc. — devam partilhar as experiências da convivência. Se você não é transparente (não tem atitude ético/moral) nas coisas mais simples, não será nas mais complexas.
Esconder-se não é uma atitude polida, é mesquinho e de baixo impacto moral. No entanto, pensando com meus botões, o que importa, a mim, é saber que eu nunca utilizei do “por baixo dos panos”. Posso até ter visto a mensagem chegar, mas não acessava, sempre preferia um momento que eu pudesse responder; outras vezes olhava (as marcações ficavam azuis) e procurava, se tivesse ocupado, um espaço para responder.
Bom… voltando às atitudes do rapaz… depois de um certo tempo ele parou de ‘visualizar’ as mensagens, deu continuidade a nossa conversa, mas antes, perguntou:
— A gente estava falando do que mesmo?!
