Abro nossa conversa com a frase que está no título desta crônica: “Como eu seria feliz se fosse feliz”. A frase é de Allan Stewart Konigsberg; seu nome artístico: Woody Allen. Essa coisa, “felicidade”, é indiscutivelmente o que faz mover a humanidade.

A felicidade é algo que desejamos para nossas vidas. Todos nós movemos em seu encalço. A felicidade é meta alcançável, mas não facilmente, como reiterava Epicuro. Alimentar a esperança ao desejar algo em um futuro incerto carece de felicidade.

Desejar é sinal de falta. Sócrates já afirmava isso há mais de duzentos séculos: “O homem é fundamentalmente desejo de ser” e o “desejo é falta”. Desta forma, o desejo em sermos felizes denuncia a ausência da felicidade. Albert Camus tinha a capacidade de dizer coisas duras e inquietante, coisas do tipo: “Os homens morrem, e não são felizes”. Creio que o autor quis enfatizar a inabilidade do ser humano em perceber a felicidade.

Desejamos alucinadamente a felicidade, e quando não encontramos em nós mesmo buscamos em outra coisa, por exemplo em um objeto, em uma crença ou mesmo em uma pessoa. Não importa em que (ou em quem) nos agarramos para sermos felizes, há sempre a falta quando se deseja. Viver não é fácil, para ninguém. “Viver dói”, já dizia Clarice Lispector.

Desejo — em latim vulgar é desedium, ou mesmo deseo, ou ainda, desidero (verbo que vem da palavra sidero, no qual é “alusivo aos astros” que também significa “deixar de ver as estrelas”, ou mais ainda, “estar à deriva”, “estar desorientando”) — desejo, explicava Platão, é aquilo que carece. Assim como o frio existe pela ausência de calor, e a escuridão pela ausência de luz, só há desejo pela ausência da coisa desejada.

O desejo desorienta porque jogamos toda nossa energia em algo que não está ao nosso controle. “Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não”, dizia Epicteto, “(…) as que não são encargos nossos são débeis, escravas, obstruídas, de outrem…”. Se desejamos a felicidades, posto que ela nos falta, temos que estar cientes de que a contingência é a regra pela qual a certeza deve ser aferida. “Tudo que ainda há de vir jaz na incerteza” já dizia Sêneca. Aristóteles, em Ética a Nicômaco, alertava que “o homem sábio não persegue o que é agradável, mas a ausência de dor”.

Para Arthur Schopenhauer desejo é insaciabilidade, conquanto quem deseja não quer o objeto desejado, mas sim a vontade de querer continuamente o querer. Não importa o que desejamos, nunca estaremos satisfeitos mesmo quando a coisa desejada for conquistada.

“Há duas catástrofes na existência”, dizia George Bernard Shaw, “a primeira é quando nossos desejos não são satisfeitos; a segunda é quando são”.

Na mesma linha de raciocínio está o “amar”. Se amar é desejar, então desejamos o que nos falta.

Amamos o que não temos. Se temos o desejo de amar alguém é porque não amamos este alguém. “Amor é desejo, e desejo é falta”, é o tal do amor platônico. Mas se você acha que amar é ser feliz, saiba que “não há amor feliz: na medida em que o desejo é falta, a felicidade é perdida” destaca Comte-Sponville. Assim, não há felicidade para quem ama. “Quanto mais se ama, mais sofre”, disse certa vez J. D. Nasio.

Para não ficar somente na perspectiva pessimista — do tipo: “o copo está meio vazio”. Evoco para o encerramento as ideias de Espinosa. Estas coadunam com uma visão mais otimista: “o copo está meio cheio”. Espinosa dizia que o desejo vai além de uma ideia, de uma simples vontade. O desejo é uma força criadora, uma força de expansão, impelidora. Desejo é potência, potência de agir, é natureza, é essência — e por ser essência (natural) está em cada um de nós. O desejo é uma força ativa que carece de objeto.

O desejo é a própria essência do homem, enquanto esta é concebida como determinada, em virtude de uma dada afecção qualquer de si própria, a agir de alguma maneira” (Espinosa, Ética III, Definição dos Afetos 1)

O desejo nos leva a alegria, posto que é seu interesse, e tem a capacidade de clarear o pensar e o agir. É esforço que promove as condições para distinguir tudo aquilo que nos leva à tristeza. Desejo é inclinação, tendência que nos empenha a caminhos mais alegres. Portanto, o desejo é próprio do ser o qual preenche tudo o que é bom.

Depois de todo esse blablabá, se não apreendeu as ideias que foram apresentadas aqui, somente pela vivência entenderá melhor o sabores e dissabores destas sensações humana.